domingo, 12 de novembro de 2017

Solilóquios n.2

     Sabe. Eu não sei. Momentos há em que eu penso que você esteja mais certo do que eu. Antes de antes outrora, a título de exemplo, eu sinceramente achava que fazer um desses cursos, tais como direito, medicina, ou engenharia, eu achava que eles resolveriam a minha vida. Me tornaria, quem sabe, uma funcionária pública do Estado, me casaria, teria filhos e netos, ganharia bastante dinheiro, e no fim disso tudo poderia lá ir viajar a tantos outros países, tais como os Estados Unidos, a França, o Canadá. E depois, no depois distante que nós jovens tememos predizer, ficaria já velha, sem forças nem fôlego suficiente, e expiraria sem vida após a morte. Não, não me venhas com esses papos de que vida após a morte existe, de que Deus existe, de que Ele é belo e bondoso para conosco. Porque, de tudo quanto vejo por aí, se alguma certeza me é dada a ter em mãos, é de que nenhumas experiências minhas mostraram que existe bondade qualquer neste mundo. O que eu sempre vejo acontecer é justamente umas coisas esquisitas, tais como meninas fofocando entre si ninharias sem importância nenhuma, falando mal de mim, me xingando, me execrando, me fazendo por pilhéria ridícula e malevolente. E sabe o que eu faço? Eu passo correndo no corredor, sem olhá-las, olhando para o chão somente, e não vejo a hora de sair da faculdade, daquele lugar imprestável que me não serve de nada. Quisera eu um dia botar fogo naquele precipício, sem dó nenhum de ninguém, e ir viver no Canadá. Fugir do Brasil o mais rápido e ligeiro possível, achar um marido inglês, e ficar longe daqui, deste inferno insuportável. Quem dera isto fosse possível. Ficar longe dessas pessoas estranhas e esquisitas, da minha família toda, da minha faculdade de Direito, e voar pra longe, pro céu, pras estrelinhas tão bonitas ao horizonte. Mas, onde eu estou vivendo agora, veja, é em uma cidade imersa completamente numa poluição cinzelada, uma cidade sem vida, pavimentada de asfalto por todos os lados e recantos, inclusive havendo asfalto na cara das pessoas, havendo concreto no coração das pessoas, havendo argamassa em seus sexos, em seus cabelos amontoados os gases fosforescentes, e até mesmo no seio das meninas hoje em dia existe o tal do silicone. Um bando de patricinhas me passa em frente, falando por detrás de minhas costas, olha! a Rebeca machista!, há-há-há! Vai tomar no meio do teu cú, eu digo, com raiva, bem baixinho para aquelas escrotas não me ouvirem. Mas, daria eu tudo para que elas pudessem ouvir-me, e esse sentimento reprimido em mim fica se amontoando de gotinha a gotinha, de passo em passinhos passos, eu não podendo falar nada de nada, almejando por mim mesma cuspir na cara delas, mijar nelas para que pudessem engolir o mijo que eu tenho acumulado especialmente para elas. Quanto à faculdade, tenho muitos meus pesares pêsames, sabe. Sim, eu trabalho com direito civil, faço meu dever de casa, e tudos os mais demais. Nem não vou em aula nenhuma. As pessoas assinam a lista pra mim e foda-se. O que eu quero é o maldito dinheiro, a única coisa que eu preciso de fato. Queria ter um cartório aliás. E não fazer absolutamente nada. Ficar só na boa, viajando pelo mundo. Durante os três primeiros meses de faculdade, eu, sim, fora uma boa e ótima e exímia aluna, daquelas que anotam cada partícula de fala do que lecionam os professores. Mas, passa-se isso que nem um segundo porventura, e já eu me vejo odiando tudo aquilo com todas as forças. O que eu estou fazendo aqui, neste lugar, agora, assistindo a essa aula de direito constitucional, eu penso, eu olho para o professor, não sei do que ele está falando, penso no meu namorado, penso nas nossas noites românticas, no momento em que nos encontramos pela primeira vez, surtindo um efeito de amor à primeiríssima vista, me lembro de quando nos beijamos pela primeira vez também, noite especial, véspera de Natal e Ano Novo, me pego imaginando o que ele estaria fazendo agora, se ele estaria com alguma outra menina, a quem poderia se apaixonar e por quem poderia me trair pelas minhas costas. Começo a ficar, de repente, com raiva dessa menina a que desconheço, começo a apertar os punhos, a coçar as minhas têmporas alongadas pela distância do tempo da aula. E assim, como sem ter por quê, eu me pego imaginando o pênis do meu namorado penetrando a boceta daquela desconhecida pérfida e falsa e nojenta e estúpida, e estranhamente a minha própria boceta começa também a ficar úmida e gelada de um tanto que eu sinto vontade de gritar, de berrar para todo mundo ali que me deixassem ir ao banheiro mijar, no que eu chegaria ali e me masturbaria em vendo um desses vídeos pornô da internet cheios de violência para com uma menina jovem assim como eu. Não me entendam mal, queridinhos, eu mesma não quero que essa violência seja execrada em mim; mas, mesmo assim, eu gosto, eu amo, eu me lisonjeio avidamente ao ver esses vídeos em que a moça leva uma transa cheia de furor vivacidade e potências elevadas até ao sol sublime de nossos cântaros divinos. Ao que eu mesma pego esse cântaro e bebo suavemente o líquido fértil a que me fora concedido. Um líquido branco e espesso, cheiroso e lírico, tão versicolor quanto o é uma poesia de Bukowski, a que eu posso pessoalmente vir me suprir com todas as minhas ânsias indomáveis de fêmea! Começo a pender a minha língua um pouquinho para fora de minha boca, umedecendo os lábios meus, fechando um pouquinho os olhos, mexendo levemente no meu por-de-baixo. Uma amiga falsa minha me vê e se ri, e começa a falar baixinho para as outras colegas da sala provavelmente alguma coisa asquerosa que me repudia. As outras, por sua vez, também cochicham e se gargalham bem baixinho para não atrapalhar a aula. Eu fico então olhando ao meu redor. Todas aquelas pessoas cansadas de viver, esperando somente uma festa para que pudessem deixar de lado os seus papéis sociais e começarem a ir se esfregando uns nos outros, numa maior orgia possível qualquer. Aliás, diga-me você de passagem o que realmente mudara dos nossos mais prístinos antepassados aos nossos dias, sendo que atualmente ainda precisamos nos utilizar um pouco da droga, seja o álcool, seja lá a maconha e outras tantas outras, para pelo menos por um tempinho nos desvencilhar de nossa realidade absurdamente cruel e insensível a nós mesmos, para que o âmbito racional de nós pudera se expurgar por si mesmo, deixando a nossa própria consciência de lado, e assim sermos meros animais enfim, nos pegando uns aos outros, em nossas partes íntimas, tal como os deuses eróticos nos bem acalentaram em presságios plenos de força e de plenitude.
     Hoje, estamos aqui no shopping de São Paulo. Eu e minhas duas maiores amigas. Ah!, fazia tanto tempo que não nos víamos, parece que foi uma eternidade. Eternidade que durou em verdade apenas cinco dias, de um final de semana a outro tão somente. Até que enfim eu posso me divertir e falar sobre as minhas coisas, sobre os meninos, sobre a faculdade, sobre música, música popular brasileira, rock, sertanejo, rap, folk, música clássica! As nossas conversas são tão boas e plenas que eu me sinto quase como se tivesse nascido unicamente para falar com elas, eu e as minhas amigas, Isabela e Carol, com quem mantenho contato desde criancinhas, em quando nos encontramos num colégio da cidade. Sempre há novidades a contar, alegria a espagir, sutilezas, poesias, sublimidades. E ainda, quando estamos numa festa ou numa balada, aí sim é que eu posso finalmente dançar e pular e gritar alto, bem alto, bem explodido mesmo, até que enfim!, um divertimento!, na maldita prisão cinzenta em que vivo existe um divertimento! Oh, céus. Alguns garotos me achegam em perto, e alguns deles me são bastante atrevidos e atrativos eu diria. Aqueles ombros largos, aquelas costas firmes e eretas, retinentes, parecendo-me vir duma suma riqueza d'ouro transbordante. Homens encorpados, altos e belos e sublimes, me chamando com a mão a dançar, me levando pra aqui e pra ali, por vezes pegando nos meus quadris, por vezes pegando ligeiramente nos meus seios. Até que, enfim, me abraçam e me pegam em minhas nádegas feminis e flâmulas, e me dão um beijo que me faz perder totalmente a noção da realidade. Só estão ali eu, aquelas mãos que me excitam, aqueles braços fortes e endurecidos, e a sensação de doçura ao contato de língua a língua, de lábios a lábios, de sexo a sexo. Eu, então, lhe aperto as nádegas e lhe puxo os ombros para irmos ao banheiro, no que ficamos por lá em durante eternos e míseros seis minutos apenas. Um orgasmo escondido em mim adentro, a que eu nunca pudera em antes imaginar que poderia aquilo estatelar por sobre todo o meu corpo nu, estando tudo obnubilado por dentre o cotidiano tedioso em que vivo reiteradamente, se vê em plenos alcances e em anfractuosas sensações de prazer oscilante e duradouro. Eu me pego extasiada e fremente. Fremente de alegria, de felicidade, de prazer, de orgasmo, de poder, de potência, de vida! Finalmente, eu me sentia livre e liberta; a chave interna de minha própria prisão estando ali embaixo de meu umbigo, podendo ser aberta por um menino a que eu amasse. Eu pergunto-lhe qual é o seu nome, ao que ele me responde Marcos, e lhe falo sinceramente que estava por ele absolutamente apaixonada. Apaixonada pelo seu corpo, pelo seu pênis grosso duro e comprido, pelos seus ombros, pelas suas pernas bonitas e maravilhosas, pelo seu cabelo grande e embaraçado, por tudo, por tudo, por tudo! Eternamente estaria apaixonada por ele, faria tudo para com ele ficar. No que ele instantaneamente dá uma risada alta e desdenhosa, me dá um leve tapa na cara como se fosse eu um inseto retardado, e se vai embora para nunca mais me ver. Eu conto tudo isso à Isabela e à Carol, no por conseguinte, e ficamos todas juntas conluiando contra os meninos todos, contra esses estúpidos animais que só nos querem usar para ter prazer a si mesmos, esses egoístas e ególatras, eu digo, e elas me respondem, sim!, uns absolutos ordinários, todos são todos os mesmos, até o mais santo deles todos só sabe pensar em uma única coisa, não adianta nada nós nos apaixonarmos por esses estúpidos, quanto menos sentimentos tivermos por eles melhor.
     Outro dia outro ainda, eu, eu não sei bem por quê, me ativera atentamente a uma das funcionárias de um desses restaurantes de praça de alimentação dos shoppings. Era uma funcionária de cor escura, de minha idade, uns vinte-e-cinco anos, nova e bela, com um largo sorriso no rosto, parecendo tão pueril quanto o são as rosas da Europa em estação de primavera. Aliás, quão encantador ser não poderia se esconder por detrás de qualquer um que vemos numa rua ou numa avenida qualquer, aquele mesmo a que encaramos decidamente e vemos ter por face o rosto mais facínora a que possamos em toda a vida imaginar, e quão enganosos não são as aparências físicas de cada um de nós, aparência no entanto a que estamos perpetuamente presos e sucumbidos, como que ante uma divindade que nos faz sermos escravos de seus ditames morais, um dos quais sendo julgar os outros pelo que aparentam sempre ser ante os nossos olhos ridículos e humanos e mortais, não importando de maneira nenhuma as nossas vontades, que as nossas inclinações sempre nos fazem cativos e servos e parvos estúpidos! De qualquer maneira, eu fiquei ali, olhando para aquela moça, durante, não sei, uns vinte a trinta minutos, porque eu estava jantando sozinha. Irá, sim, com certeza, parecer cuzisse de minha parte falar isso, mas, sério, eu fiquei absolutamente destruída por dentro ao ver aquela menina tão feliz, esperando ansiosa a que um cliente qualquer pudesse ir comprar no local em que ela trabalhava, como se tudo aquilo fosse deveras um parque imenso de diversões, além do qual eram só paraísos transcendentes e sublimes. Ela parecia tão segura de si mesma, como se Deus a estivesse olhando especialmente. Como se só ela existisse no mundo para Deus. Em sendo que todos os transeuntes locais nem sequer paravam para olhar a ela, mas unicamente para olhar a um banner que ela mesma estava segurando, em cujo espaço ficavam os desenhos multicolores de pratos deliciosos do restaurante. Quando, depois, ela enfim passou a atendente do caixa, ela soltava ainda uns sorrisos tão prazerosos aos clientes que eu comecei a lacrimejar inconscientemente. Eu queria vir abraçá-la, beijá-la no rosto, dar-lhe um bom dinheiro, aconchegá-la e dizer-lhe que estava tudo bem, que a vida depois da morte existe e que era bom, que era maravilhoso e correto sempre ter fé em Deus, sabe, ainda que internamente soubesse eu que tudo isso seria uma mentira, eu queria, sim, eu queria, mesmo assim, contar a ela exatamente essa mentira, eu queria lhe abraçar carinhosamente e mentir, sorrindo, com lágrimas abissais em meu rosto. E ela me daria pois uns sorrisos completamente sinceros, puros, virginais, bondosos; e, enquanto que em meu coração interno eu estava despedaçada e crivada por facas e destroços pontudos, como se eu fosse um mártir de toda esta ignomínia em que nós vivemos, e na qual eu mesma estava incluída, eu soltaria a ela o mesmo sorriso puro e sincero, mas com uma vontade incontrolável de chorar convulsivamente e de cair num penhasco profundamente vazio, para nunca mais participar de nada que fosse deste mundo. Cada passo de sua existência parecia estar sendo olhado, cada sentimento puro em seu sincero coração parecia estar sendo vigiado, mas isto não por alguém que a rodeava, que eram todos só rostos vazios e enervados de tédio e rancor, ou de desdém e falsidade, senão que unicamente por algum ser invisível e transcendente em que ela mesma acreditava, e em que ela continuaria acreditando talvez pela sua vida inteira, com um semblante perdurado de sinfonia mozartiana, ao mesmo tempo que em seu redor ninguém daria a mínima pela sua existência. Era isto, sim, totalmente isto, unicamente isto, o que me estava lacerando e roendo com dentes sangrentos o meu coração, como se alguém o estivesse apertando com forças imensas sem que o pudesse esmagar em definitivo; porquanto a vida, por mais miserável que seja, por mais dolorosa e inútil que seja, sempre gera esperança de vida, apesar de estar também sempre sufocada de morte. Ninguém percebe a morte rondando constantemente toda a vida nossa. Mas eu percebo, e é como se eu fosse um médium olhando para um espírito a caminhar pela cidade. Eu vejo e ninguém vê. Eu choro e as pessoas me tomam por louca ou qualquer coisa que seja. Ninguém me compreende. E sou só eu que quero prestar atenção ao nulo miserável da vida que participa de nossas vãs existências. Querem falar que a errada sou eu, mas ninguém sabe que o errado está neles, e que não obstante o automático do hábito já lhes fez por tolos e cegos. E ainda, do que adianta eu falar alguma coisa? Pensar nisso nos deixa imóveis, improdutíveis, pobres, bobos, idiotas. Verdadeiros Míchkins a vaguear pela cidade. E se porventura o país ficar pobre, piorar-se-á ainda mais tremendamente a situação. Restando-nos muitas opções possíveis, todas as quais nos levarão irremediavelmente à morte, pois que desta nunca se escapa, ainda que a vida venha acompanhada da esperança. Pois veja, meu caro, que se, porventura, até a esperança for contaminada pela morte, não existirá definitivamente vida nenhuma. Por isso, ou temos nós uma vida repleta de morte apaziguada pela esperança vã e vazia, ou temos nós um belo e esplendoroso nada, um oco vacuoso do inexistente, a não-vida enfim.
     Agora, eu acabei de chegar em casa, e lá dentro encontro inesperadamente Carlos, o meu namorado. É meia-noite de um domingo. O que você está fazendo aqui, eu lhe pergunto. Ele me responde que quer conversar comigo. Eu pergunto por quê. Ele me diz que a Carol havia lhe contado por Whatsapp o que acontecera na festa. Eu fico paralisada, transida de tremedeiras, não sei o que fazer. O rosto de ódio dele me transtorna e me dá calafrios. Um instinto torpe de raiva por Carol me aguça os sentidos. Carol, sim, Carol havia me traído. Ela, que havia prometido não contar nada para Carlos, dera com a língua nos dentes mais uma vez, e é a quinta vez já que isso acontece. Carlos me diz que não aguenta mais as minhas traições, que aquilo tudo já lhe virou um inferno interno para ele, e que quer romper comigo definitivamente agora, de uma vez por todas. Mas eu não acredito e solto uma risada alta, para lhe irritar justamente, fazendo-lhe por troça, porque, não sabe o leitor, nós nos separamos quase duas vezes por mês, chegando a cinco vezes no mês de julho desse ano. Ele sempre diz que vai-se embora e sempre volta, este tolinho, o meu querido bobinho Romeu, o que está apaixonado pela magia da minha beleza nipônica. Que idiota!, eu penso; mas eu penso alto, e ele ouve o meu escárnio. Olho melhor, na penumbra. Ele está sentado numa poltrona, o todo bem comportado Carlos, que faz Medicina na Universidade de São Paulo e é quase sempre o primeiro colocado da turma, ao lado de uma mesinha sobre a qual se assentam algumas garrafas de cerveja e uns rolinhos de maconha. Ele me olha de uma maneira tal que eu nunca o vira assim antes. Um ódio que qualquer um que o conhecesse estranharia sobremaneira. Você bebeu, você fumou? Eu pergunto. Ele me diz que sim, que estava me esperando chegar. Eu estranho, ele não é de beber, muito menos de fumar maconha. Nós ficamos uns cinco minutos quietos, em um breu imergidos, num silêncio mortal, um tique-taque do relógio da cozinha ressoando um barulho de terror. Eu falo para ele que não vou contar mais nada para aquela puta da Carol, aquela linguaruda medíocre. Ele me diz que não precisa mais, que acabou, que este é o fim, que sairá dali e nunca mais irá ver-me novamente. Eu lhe digo com desprezo, vai embora então, mas não se esqueça de que as orquídeas são as minhas flores prediletas, que quando voltar, quero vê-las brilhantes e reluzentes, e aí a minha bocetinha gostosa será toda sua, disse eu, apontando para a minha virilha, com tom carregado de sarcasmo e de riso na voz. Ele me não diz nada. Eu lhe irrito mais, falando, por que você não diz nada?, ficou mudo por acaso?, vai embora, vai, vai, não quero mais te ver aqui, vai dormir na sua casa, amanhã você tem aula, vamos, seja um bom garoto, estudioso como sempre foi, fiel à sua namorada, certinho, comportadinho. Dissera eu aquilo, ao fim do quê, eu soltara uma risada de escárnio. E, porém, quando fui puxá-lo da poltrona, dizendo mais alguma coisa, ele, silenciosamente, puxou uma lâmina de debaixo do braço, e a assestou em direção à minha vagina, perfurando-a com voracidade, e criando em mim a pior espécie das dores que eu conhecera em toda a minha vida. Arrancou-a ainda, e me enfiou mais uma vez no meu estômago. Aqueles centros nevrálgicos de meu corpo propagando sangue e dor por sobre tudo o que havia em mim e ao meu redor. Aquele meu sentimento de raiva por Carlos, que me impedia de soltar as rédeas da minha libido, mesclada a outro de compreensão e de compaixão de tudo o que eu lhe causara durante tantos anos, fazendo-lhe sofrer por mim. Aquela reviravolta na história toda nossa de amor, de graça, de glória e de poesia em que nunca, em toda a minha vida, podia eu imaginar que acabaria nisto. Aquela recordação de que a minha vida fora toda em vão, de que tudo havia me consumido por completo, fazendo eu todos os dias tudo o que os outros me determinavam, nunca fazendo eu o que eu queria uma única vez, e o conhecimento de que era só isto o que me torturava dia a dia, estrangulando sadicamente as minhas vértebras, e de que era exatamente por isto que eu era tão impulsiva e descontrolada em termos de prazeres sexuais e de outras demais coisas. E, por fim, aquele conhecimento que eu tivera, pela primeira vez, ao ver os olhos sofrentes de Carlos, de que eu realmente estava causando, de fato, as suas mais íntimas desgraças e catástrofes internas, não podendo ele mais viver decentemente por minha causa, e ainda o conhecimento que eu me pegara tendo de que todo este inferno moral e existencial de Carlos me fora passado batido durante esses cinco anos de relacionamento extremamente conturbado, em prol de minhas próprias inclinações egoísticas, em prol das todas justificativas que eu me dava para assim tratá-lo de maneira tão horrível diante de seu amor mais puro e apaixonado, porquanto ele estava seriamente apaixonado por mim de desde o princípio, e eu não atinara com isso um dia sequer, não acreditando eu nunca no amor forte e autêntico dos romances, achando isso ser mera coisa para filmes ingênuos e simplórios, em nada condizentes com os dias atuais. Sim, todos estes fatores e fatos, eu os pensara por durante uns dois minutos, olhando para ele sofregamente. E ele estava silencioso. Parecia que tudo estava morto nele. Seus olhos humildes, submissos, sofredores. Seu aspecto franzino, cansado, dolorido. Eu o olhei, então, pela última vez, da forma mais profunda possível, como se naquele entrecruzamento de olhar houvesse mais do que vinte mil palavras, e lentamente fui me apagando por completo, dando os meus últimos suspiros.
     Antes de sumir, no entanto, eu não sei o porquê, a imagem da funcionária daquele restaurante aonde tinha ido me aparecera em viva pele, em viva alma. Ela me estava sorrindo. Alegre, cantante, como se tivesse mesmo dentro dela um Mozart. Sim!, verdadeiramente feliz! Por que a imagem dela me viera tão repentinamente à tona? Eu não sei. Sinceramente eu não sei. Mas, eu nunca mais abri os meus olhos novamente. As vidas hoje são outras. As histórias, no entanto, são as mesmas.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

O escritor

     Uma plateia inteira estava ali somente para aplaudi-lo. O trabalho que ele fizera em prol da humanidade era tão vasto e esplêndido que parecia impossível o seu caminhar pelas ruas sem que alguém o parasse, o cumprimentasse, e o elogiasse longamente por todos os seus inúmeros escritos, os quais tinham lhes dado um sentido mais autêntico para cada uma de suas respectivas existências, coisa sem a qual não poderiam sequer trabalhar, comer, transar, se manter, enfim, se alegrar em seu mais puro sentido. E deveras nunca houve para ele, de fato, do que reclamar, pois que outrora, em quando sendo mais jovem, sonhava dias e noites inteiros por ser um homem célebre e bem-quisto aos milhares pelas pessoas todas. Imaginava-se ele, então, numa cadeira de couro, ele sentado em posição de intelectual, com as pernas dispostas qual moça, uma bem junta sobre a outra cruzada, as mãos delicadas em cima do joelho de cima, seu aspecto corporal franzino, seus óculos salientes e espessos reproduzindo reflexos, a mesma cabeleira rebelde de Beethoven. Quem sabe, até colocaria uma de suas mãos embaixo do queixo, estando este no meio entre o indicador e o polegar, e os seus olhos não deveriam ficar demasiado sérios, porquanto soariam pura e plena esnobice, mas mesmo assim, os olhos estando bastante penetrantes, tendo eles um certo ar de misterioso, de pensativo, de metafísico. E ainda mais, quem sabe um terno, não muito caro, pois isto seria uma coisa de magnata, mas um algo que representasse um respeito sem denotar riqueza econômica, porque assim as pessoas veriam que se trata de um intelectual e não de "um simples magnata". Sim!, via na internet imagens do tipo, e a que mais lhe aprazia no imo era mesmo a foto excelentíssima do senhor Marcel Proust. Quando mais novo, queria ser igualmente um Proust, um Pessoa, um Drummond, e, ai de mim, o que não daria por uma posição dessas. E é até estranho de ver como as pessoas todas reverenciam com tanto ardor os escritores, sendo que a inclinação egoística destes talvez seja de tão grande monta quanto o pior dos psicopatas, em contraposição com os quais o objeto quisto dos das-letras não causa nenhuma repercussão social repugnável, tal qual ocorre com os segundos, o que é bastante irônico, porquanto se se impusesse aos primeiros ter de matar e canibalizar alguém como meio mecânico de conquista de seus próprios louvores, condição sine qua non e sem a qual o resultado seria unicamente a sua injunção na massa dos desprezíveis anônimos, ficaríamos totalmente abismados ao ver que, suponho, são justamente os maiores escritores da história os cujos que dariam pela conta paga, soando algo como esses atletas esportivos mais amados que tanto ambicionam a vanglória quanto mais são pegos em dopping e penalizados. A causa de eu estar escrevendo tal tamanho desaforo é a uma pergunta que um dia eu me fizera em quando lendo um poeta social; pois que será que ele trocaria a sua vaidade e a sua vanglória máximas a que tanto acalentara em vida pela salvação de um indíviduo pobre e asqueroso de uma sua propriedade, sendo que, de duas uma, ou ele o matava sem ninguém saber e se glorificava, ou ele o salvava e assim se submergiria em dentro de um mar convulso e incógnito da multidão, onde ninguém daria a mínima para nenhuma de suas vãs ideias e, muito pelo contrário, até escarneceriam do outrora escritor com os sardônicos mais cruéis e facínoras. Desta bifurcação, portanto, veríamos, em plena mostra, se o que mais vale nele para ele seria o amor que tem de si mesmo em propagando os seus ideais, ou se seria mais o objeto dos seus ideais que suplantariam toda e qualquer condição de si mesmo. Há autores que não possuem dúvidas de que seria o primeiro caso; mas ocorre que todos os segundos casos nunca nos foram, e nem mesmo o seriam, revelados. Também represento esta situação como uma mesmíssima que outra, na qual um sujeito de altos e grandes valores se vê em guerras contra outro país, ocorrendo que neste invade a casa de uma pobre jovem por cujas compleições recurvas e feminis o seu falo se endurece qual pedra afiada em posição de riste, entrando ele numa bifurcação de valores, a grosso modo racionais ou apetitivos, segundo os quais perpetrará ou não uma violência; e quantas infinitas e infinitas vezes isto já não deve ter acontecido neste mundo tão igual e mesmo, e quantas ainda não ocorrerão, à vista dos quais ninguém guardou nenhuma mínima recordação, em sendo que todos sempre voltam aplaudidos em chusmas de alegrias e esquecidos os pecados, os maridos estupradores tornados pais e avôs de uma criançada sob um luar doce e um céu salpicado de estrelinhas, feitas todas para os seres humanos as vislumbrarem. Com efeito, o cerne desta questão está em tudo quanto os nossos olhos não veem, sendo, a bem da verdade, bem melhor não o vermos, porquanto se víssemos um desgosto sem palavras nos usurparia que nem um tsunami uma cidade marítima.
     Mas o que eu não falara em antes fora que, quando ele se tornou de fato uma celebridade como tal, não digo tanto que se aborrecera sobremaneira para com as pessoas que lhe rodeavam, pois elas eram todas amáveis, mas como que as estranhara, olhando com desgosto a intimidade tamanha com que lhe achegavam em perto falando-lhe como se fossem amigos próximos de há anos. Porque, se no começo gostava muito da atenção que chamava a si mesmo, com o passar do tempo tudo se transfigurara em sua cabeça num execrável ramerrão, além de cujas bordas se transferia o sentimento ao tédio e ao desgosto irremediável. E ao ver ainda o quanto algumas delas se rebaixavam ao último degrau da existência para ver-lhe assim como se estivesse ele numa cristalização indefinida e vaga a vários quilômetros de distância em cima, tornando a conversa num diálogo livresco, onde mais se utilizava palavras cultas e eruditas que qualquer coisa outra, parecendo-lhe ridícula aquela conversa toda empolada, achou que o mundo havia chegado ao cúmulo do absurdo para com ele, o qual, por sua vez, naturalmente não sentia nenhuma afetividade real para com toda aquela turbamulta que o engrandecia. Se há escritores que gostam de tudo isso, há outros que desgostam, e por isso ficam reclusos; e também não constitui contradição nenhuma gostar e não gostar ao mesmo tempo. Aliás, se bem me recordo à memória, penso que fora Fernando Pessoa quem disse que os famosos são como animais no zoológico, abrindo-se as portas para um público completamente desconhecido se usufruir do espaço privado deles, não podendo eles mais cagar, aliás em todos os sentidos da palavra, sem serem vistos e vituperados com virulência, tanto pelo cheiro do pêido, como também pelo som das excrescências, e isto sem falar dos que vão olhar, avaliar e examinar a qualidade e a espessura das fezes, aumentando e exagerando o visto, o cheirado e o ouvido para reboar um boato cuja origem é desconhecida por completo. Como é o mais que natural, tudo isto fora arrepanhando, de aos pouquinhos, a integridade do nosso artista das palavras, deixando-o a cada dia mais enojado, e se perguntando pelo porquê de estar escrevendo "para tal gentalha"; e isto ele o dissera, ainda, em se considerando que na verdade suas palavras estavam mais voltadas era mesmo para a burguesia somente, porquanto era quem o poderia mais entender, a qual lia aqueles escritos, em cujos meandros se via uma clara exaltação da "gentalha", e se sentia "muito mais humana e melhor" depois o ler. Que elas estavam se tornando "muito mais humanas" depois de lido uma penca de poemas, isto eu duvido com todas as forças do meu intelecto, porque eu bem observo o como elas mesmas reagem às pessoas a respeito das quais se escreve naquela literatura, e elas me parecem não estar nem um pouco diferentes de como estavam antes, sendo a todos os mendigos de cada esquina de rua de todo indiferentes e alienadas, assim mesmo como o próprio escritor dos poemas, o personagem principal de nosso conto, o qual, se em poemas laudatórios é capaz de se rebaixar ao último patamar da existência em prol dos pobres e dos miseráveis, em vida real e factual ele foge deles correndo literalmente de um ponto a outro da cidade que nem uma criancinha, acorrendo a eles maiormente nos festivais e festas, por cujo meio a sua veneração se torna mil vezes mais retumbante e profícua, valendo isto mais a pena pois ali todos o olham.
     Mas, de qualquer maneira que seja, naquele dia, a plateia estava ali realmente somente para aplaudi-lo. A plateia sendo a burguesia em geral, alguns críticos literários, escritores de maior monta, agentes do Estado, jornalistas, historiadores, filósofos, e muitos outros mais. Estava ele ali presente na mesa principal, no meio do espetáculo que reunia uma multidão de gente, na parte do palco teatral, compartilhando da mesa com alguns outros intelectuais grandemente considerados. Uma moça jovem e loira muito esbelta estava lendo um arrolado das qualidades do escritor homenageado para que todos pudessem se informar de todos os livros publicados, das ações feitas na política, das filantropias magnânimes, das ajudas em hospitais e em escolas, e etc etc. Todos o amavam, ou, senão todos, pelo menos a maioria. Tinha afinal uma índole extremamente caridosa e simpática, sempre sorridente e amigável para com todos, pendendo por vezes à falsidade. Nunca lhe faltava conversa com ninguém, e sabia ele a hora de parar de falar para deixar o outro exprimir as suas opiniões e pensamentos de forma harmoniosa. Também recitava poemas como ninguém, aparecendo hora ou outra na televisão, como naquele dia mesmo, em que as repórteres estavam fazendo matérias especiais a respeito de sua homenagem na festa. Mas eis que, como todo o inexplicado da vida, se dá ali um imenso porém.
     No meio do discurso da jovem loira a respeito de um de seus mais aclamados livros, assim como sem quê nem para quê, o nosso escritor, como se fosse um tremendo bobalhão, começa, de chofre, a rir com uma sem-vergonhice tamanha que todo mundo queda mudo, não atinando com nada e não dizendo nada, somente a olhar para ele com incrível surpresa. Aquela risada convulsa não era nem um pouco cômica, nem humorísca. Era somente uma risada sardônica e ferina, parecendo ser projetada para todos ali a engolirem seco na boca. Seus dentes tanto se abrem quanto o fazem mesmo os seus olhos ardentes de acidez. Todos estão estupefatos, não acreditam no que veem, e julgam já ver o demônio se apossando dele, fazendo-lhe joguete de alguma energia outra que não sua. Outros já pensam que aquela situação é só uma brincadeira de muito mau gosto, não planeada direito. E, por último, há os que acham que a loucura domara posse do mesmo, tacanhando-lhe os ditames da razão e da dignidade. Parecia mesmo que o mal em seu sentido mais distinto se havia apossado de seu corpo, tornando-o todo assim um ridículo e miserável espécime dos sádicos. E, como se isso não bastasse, pois, jogou ele os seus óculos para bem longe de si com toda a sua força, correu para junto da loira e a beijou, tomando-lhe os seios, abrindo a braguilha de sua calça, e ejaculando rapidamente para junto dela. Ao que todos ao redor se alardearam e lhe partiram em cima e lhe seguraram todos os membros, enfurecidos. A sala toda estava aos delírios plenos, uma chama inóspita furiosíssima estalava trepidante no meio da agitação. Urros por toda parte insurgiam daqui e dali, ouvindo-se gritos de ódio chamando-lhe louco, hipócrita, porco e estúpido. Em quinze minutos apenas, toda a rede nacional de televisão e toda a internet já sabia do fato, e manifestações de claro repúdio ao escritor foram expostas que nem vírus por todos os recantos digitais. Parece mesmo até que queimaram os livros dele todos em fogueiras imensas e colossais, jorrando garrafas de vodka junto aos livros. E diz-se ainda que ele não conseguiu nem mesmo sair do local do espetáculo com segurança, porquanto a repulsa era tamanha que vários manifestantes à entrada da porta invadiram o local, driblaram os seguranças, e alcançaram o escritor num súbito, tratando de metê-lo tantas pauladas e chutes e sovas que não se precisou nem passar dez minutos para que estivesse inconsciente, e outros mais cinco para que falecesse em definitivo. E assim se dá o fim de nosso conto. Um fim brusco, cortante, em lapso crivado, que não carece de reflexões nenhumas, só de um fato disposto, que põe fim a uma vida e a uma narrativa, depois da qual se não pensa mais. A única coisa que eu precisava contar aqui era mesmo a sua morte. Pois que, depois disso, como é sabido, pouco se fora lembrado dele, ou quase nada, ou nada; e pois, se a maioria das pessoas repudia a minha sua lembrança, digo eu que estes casos peculiares de acessos à loucura extrema são as mais importantes situações para efeitos de um averiguar maior da alma humana, pois que é justamente aí que o submerso implode a si mesmo, de tanto que se não desafoga, e de tanto que a isto se violenta com martelos e serrotes, findando numa inevitável implosão interna, como numa bomba atômica, a deflagrar o caos e a desordem indomável do sujeito. O escritor, qualquer que seja ele, afinal, todos já o sabem creio eu, não passa de um ser humano comum, ordinário, ridículo, idiota.