quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

No hospital, em um dia qualquer de angústia

Quando (em tranquila e lânguida luz do dia) a gente pensa que vai morrer?
Quando (em suave esplendor de alma) a gente pensa que vai definhar?

E por acaso, quando isso acontece, um dia ou outro quiçá, por lá, por ali,
De que adianta os sorrisos das pessoas ao nosso lado,
Falando o quanto nós significamos a elas,
Torcendo o braço em horror e desespero por nós mesmos,
Sendo que nós estamos tão sozinhos na morte como na vida?

Eu vou morrer, eu vou morrer!, eu digo ao médico, e ele me sorri largamente
Ou me faz de um semblante tão sofrente e trágico e falso
Que sou mesmo capaz de me rir!
Maldito!
Isto não pode ser a sério!
Suspiro fundo, tragicômico, dorido, consternado em pele morta de cera.
E vejo ao meu lado a minha mãe e o meu pai,
Verdadeiramente arruinados pela tragédia de minha alma,
Algo para o mundo como que uma tempestade em copo d'água,
Para mim e para os meus pais um copo d'água na tempestade.

Ninguém sabe como é a sensação da morte
Até que ela chegue ao pé de nossos próprios ouvidos.
Enquanto estiver ela longe de nós
Pensamos sempre que ela não existe.
Ela só nos transita os humores talvez
Quando se nos aproximamos dela sem que queiramos, à força.
Este poema não resolve nada.
Há que se chegar à morte com o corpo também,
E não somente por uma fútil ideia sem peso nem fúria.

De duas uma, portanto.
Ou ela não existe absolutamente e ficamos muito bem.
Ou somos forçados a vê-la
E vomitamos a nós mesmos num balde vazio e oco de enxofre.
Valha-me Deus!, a morte. 
Nesse instante sou capaz de pedir mil orações e milagres
Até mesmo para Espinosa.
Por favor, orem, pela minha alma reles!

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Opus n.3

Eu, por assim dizer, me despersonalizo.
Me despersonalizo a toda hora, para puro efeito de estudo,
tentando compreender os outros a partir dos outros,
dando a que em todos os momentos em que assim procedo,
não consigo evitar que me despreze profundamente,
como se estivesse demolindo uma lei da minha própria natureza.
Pois sim, esta angústia como que não acaba, não finda nunca,
parecendo mesmo que estou num labirinto inerte e sem saída,
me transpondo dia a dia em mundos alheios que me escorraçam,
e que me fazem sempre por insosso, por clown, por gauche.
Eu me torno, assim, o meu pior inimigo, 
e eu tenho raiva imensa de mim mesmo.
Eu escuto o nazista, o comunista, 
o da direita, o da esquerda, o ladrão, 
o estuprador, o médico, o trabalhador, 
o empresário, a mãe amável, o pai furioso,
o padre da igreja, o intelectual, o santo, a irmã benévola,
o corrupto, o psicopata, o programador, o miserável,
o estudante, o presidiário, eu os escuto a todos, 
a todos!, e todos eu os entendo como a mim mesmo, 
e fico literalmente paralisado, decrépito de pavor,
estupefato com tantas variações distintas de pessoas, 
parecendo a mim como que sempre uma mesma pessoa, 
e me pergunto como pode, meu Deus, 
como pode sermos assim tão iguais 
e também tão iguais no ódio e no rancor 
que possuímos nós por nós mesmos. 
Eu olho para o céu, para as pessoas, 
para a grama clareada pelo sol,
para os aviões pequeninos lá em cima,
para todo o meu redor feito de água e de fogo, 
e não consigo seguir nenhuma linha coerente de raciocínio 
que me explique com nitidez tudo isto.
Os filósofos, os escritores, os poetas?
Dane-se-os!, eu não me fiz crer o suficiente por ninguém.
Eu não sei, eu não sei, eu não sei! 
eu digo, gritando incontido, sonhando acordado,
em vigília como eu estivesse no meio do nada, 
carros flutuando por aqui e por ali, 
prédios em arranha-céus quase que emulando os deuses, 
e o sibilo cruel da maldade bem ali ao meu lado,
bem perto, pertinho-perto,
tão perto que está quase em mim adentro, 
ou esteja mesmo aqui deveras e com toda a certeza,
donde eu ouço aquela música tão toante, 
tão alegre e ritmada, 
e tão ritmada e sádica, 
uma música harmoniosa
como que servindo de trilha-sonora 
para um morticínio! 
Uma música de criança. 
Uma música de ninar, 
de acolher em regaço suave um bebê,
a acompanhar delicadamente 
um holocausto de judeus esfomeados e lânguidos. 
Mas não é isto a vida?, mas não fora sempre assim?
Esse sadismo, esse sadismo de Deus que eu odeio!
Eu me faço perguntar, eu garatujo interrogações,
e eu olho aos céus, ao universo que me rodeia por completo,
desesperado, a pedir ajuda aos deuses, chorando pulsilânime
em um canto escondido adentro de mim mesmo,
um lugar onde, enfim, eu conseguira ao menos
algum refúgio deste mundo e de mim,
de minha maldade tamanha, 
e de todos os intermináveis horrores que encontrei 
em minha própria alma, após reiterados estudos e meditações,
sabendo já por demais que isto não seja
particularidade minha nem sua nem dele.
Somos todos um, na virtude e na maldade,
no delírio e na desdita, no sonho e no trágico.
Somos todos um, enfim.
E por isso eu entendo a todos,
e por isso eu mesmo me odeio,
porquanto só assim é que serei eu capaz
de chegar a alguma coisa mais profunda deste mundo.