quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

No hospital, em um dia qualquer de angústia

Quando (em tranquila e lânguida luz do dia) a gente pensa que vai morrer?
Quando (em suave esplendor de alma) a gente pensa que vai definhar?

E por acaso, quando isso acontece, um dia ou outro quiçá, por lá, por ali,
De que adianta os sorrisos das pessoas ao nosso lado,
Falando o quanto nós significamos a elas,
Torcendo o braço em horror e desespero por nós mesmos,
Sendo que nós estamos tão sozinhos na morte como na vida?

Eu vou morrer, eu vou morrer!, eu digo ao médico, e ele me sorri largamente
Ou me faz de um semblante tão sofrente e trágico e falso
Que sou mesmo capaz de me rir!
Maldito!
Isto não pode ser a sério!
Suspiro fundo, tragicômico, dorido, consternado em pele morta de cera.
E vejo ao meu lado a minha mãe e o meu pai,
Verdadeiramente arruinados pela tragédia de minha alma,
Algo para o mundo como que uma tempestade em copo d'água,
Para mim e para os meus pais um copo d'água na tempestade.

Ninguém sabe como é a sensação da morte
Até que ela chegue ao pé de nossos próprios ouvidos.
Enquanto estiver ela longe de nós
Pensamos sempre que ela não existe.
Ela só nos transita os humores talvez
Quando se nos aproximamos dela sem que queiramos, à força.
Este poema não resolve nada.
Há que se chegar à morte com o corpo também,
E não somente por uma fútil ideia sem peso nem fúria.

De duas uma, portanto.
Ou ela não existe absolutamente e ficamos muito bem.
Ou somos forçados a vê-la
E vomitamos a nós mesmos num balde vazio e oco de enxofre.
Valha-me Deus!, a morte. 
Nesse instante sou capaz de pedir mil orações e milagres
Até mesmo para Espinosa.
Por favor, orem, pela minha alma reles!

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Opus n.3

Eu, por assim dizer, me despersonalizo.
Me despersonalizo a toda hora, para puro efeito de estudo,
tentando compreender os outros a partir dos outros,
dando a que em todos os momentos em que assim procedo,
não consigo evitar que me despreze profundamente,
como se estivesse demolindo uma lei da minha própria natureza.
Pois sim, esta angústia como que não acaba, não finda nunca,
parecendo mesmo que estou num labirinto inerte e sem saída,
me transpondo dia a dia em mundos alheios que me escorraçam,
e que me fazem sempre por insosso, por clown, por gauche.
Eu me torno, assim, o meu pior inimigo, 
e eu tenho raiva imensa de mim mesmo.
Eu escuto o nazista, o comunista, 
o da direita, o da esquerda, o ladrão, 
o estuprador, o médico, o trabalhador, 
o empresário, a mãe amável, o pai furioso,
o padre da igreja, o intelectual, o santo, a irmã benévola,
o corrupto, o psicopata, o programador, o miserável,
o estudante, o presidiário, eu os escuto a todos, 
a todos!, e todos eu os entendo como a mim mesmo, 
e fico literalmente paralisado, decrépito de pavor,
estupefato com tantas variações distintas de pessoas, 
parecendo a mim como que sempre uma mesma pessoa, 
e me pergunto como pode, meu Deus, 
como pode sermos assim tão iguais 
e também tão iguais no ódio e no rancor 
que possuímos nós por nós mesmos. 
Eu olho para o céu, para as pessoas, 
para a grama clareada pelo sol,
para os aviões pequeninos lá em cima,
para todo o meu redor feito de água e de fogo, 
e não consigo seguir nenhuma linha coerente de raciocínio 
que me explique com nitidez tudo isto.
Os filósofos, os escritores, os poetas?
Dane-se-os!, eu não me fiz crer o suficiente por ninguém.
Eu não sei, eu não sei, eu não sei! 
eu digo, gritando incontido, sonhando acordado,
em vigília como eu estivesse no meio do nada, 
carros flutuando por aqui e por ali, 
prédios em arranha-céus quase que emulando os deuses, 
e o sibilo cruel da maldade bem ali ao meu lado,
bem perto, pertinho-perto,
tão perto que está quase em mim adentro, 
ou esteja mesmo aqui deveras e com toda a certeza,
donde eu ouço aquela música tão toante, 
tão alegre e ritmada, 
e tão ritmada e sádica, 
uma música harmoniosa
como que servindo de trilha-sonora 
para um morticínio! 
Uma música de criança. 
Uma música de ninar, 
de acolher em regaço suave um bebê,
a acompanhar delicadamente 
um holocausto de judeus esfomeados e lânguidos. 
Mas não é isto a vida?, mas não fora sempre assim?
Esse sadismo, esse sadismo de Deus que eu odeio!
Eu me faço perguntar, eu garatujo interrogações,
e eu olho aos céus, ao universo que me rodeia por completo,
desesperado, a pedir ajuda aos deuses, chorando pulsilânime
em um canto escondido adentro de mim mesmo,
um lugar onde, enfim, eu conseguira ao menos
algum refúgio deste mundo e de mim,
de minha maldade tamanha, 
e de todos os intermináveis horrores que encontrei 
em minha própria alma, após reiterados estudos e meditações,
sabendo já por demais que isto não seja
particularidade minha nem sua nem dele.
Somos todos um, na virtude e na maldade,
no delírio e na desdita, no sonho e no trágico.
Somos todos um, enfim.
E por isso eu entendo a todos,
e por isso eu mesmo me odeio,
porquanto só assim é que serei eu capaz
de chegar a alguma coisa mais profunda deste mundo.

domingo, 12 de novembro de 2017

Solilóquios n.2

     Sabe. Eu não sei. Momentos há em que eu penso que você esteja mais certo do que eu. Antes de antes outrora, a título de exemplo, eu sinceramente achava que fazer um desses cursos, tais como direito, medicina, ou engenharia, eu achava que eles resolveriam a minha vida. Me tornaria, quem sabe, uma funcionária pública do Estado, me casaria, teria filhos e netos, ganharia bastante dinheiro, e no fim disso tudo poderia lá ir viajar a tantos outros países, tais como os Estados Unidos, a França, o Canadá. E depois, no depois distante que nós jovens tememos predizer, ficaria já velha, sem forças nem fôlego suficiente, e expiraria sem vida após a morte. Não, não me venhas com esses papos de que vida após a morte existe, de que Deus existe, de que Ele é belo e bondoso para conosco. Porque, de tudo quanto vejo por aí, se alguma certeza me é dada a ter em mãos, é de que nenhumas experiências minhas mostraram que existe bondade qualquer neste mundo. O que eu sempre vejo acontecer é justamente umas coisas esquisitas, tais como meninas fofocando entre si ninharias sem importância nenhuma, falando mal de mim, me xingando, me execrando, me fazendo por pilhéria ridícula e malevolente. E sabe o que eu faço? Eu passo correndo no corredor, sem olhá-las, olhando para o chão somente, e não vejo a hora de sair da faculdade, daquele lugar imprestável que me não serve de nada. Quisera eu um dia botar fogo naquele precipício, sem dó nenhum de ninguém, e ir viver no Canadá. Fugir do Brasil o mais rápido e ligeiro possível, achar um marido inglês, e ficar longe daqui, deste inferno insuportável. Quem dera isto fosse possível. Ficar longe dessas pessoas estranhas e esquisitas, da minha família toda, da minha faculdade de Direito, e voar pra longe, pro céu, pras estrelinhas tão bonitas ao horizonte. Mas, onde eu estou vivendo agora, veja, é em uma cidade imersa completamente numa poluição cinzelada, uma cidade sem vida, pavimentada de asfalto por todos os lados e recantos, inclusive havendo asfalto na cara das pessoas, havendo concreto no coração das pessoas, havendo argamassa em seus sexos, em seus cabelos amontoados os gases fosforescentes, e até mesmo no seio das meninas hoje em dia existe o tal do silicone. Um bando de patricinhas me passa em frente, falando por detrás de minhas costas, olha! a Rebeca machista!, há-há-há! Vai tomar no meio do teu cú, eu digo, com raiva, bem baixinho para aquelas escrotas não me ouvirem. Mas, daria eu tudo para que elas pudessem ouvir-me, e esse sentimento reprimido em mim fica se amontoando de gotinha a gotinha, de passo em passinhos passos, eu não podendo falar nada de nada, almejando por mim mesma cuspir na cara delas, mijar nelas para que pudessem engolir o mijo que eu tenho acumulado especialmente para elas. Quanto à faculdade, tenho muitos meus pesares pêsames, sabe. Sim, eu trabalho com direito civil, faço meu dever de casa, e tudos os mais demais. Nem não vou em aula nenhuma. As pessoas assinam a lista pra mim e foda-se. O que eu quero é o maldito dinheiro, a única coisa que eu preciso de fato. Queria ter um cartório aliás. E não fazer absolutamente nada. Ficar só na boa, viajando pelo mundo. Durante os três primeiros meses de faculdade, eu, sim, fora uma boa e ótima e exímia aluna, daquelas que anotam cada partícula de fala do que lecionam os professores. Mas, passa-se isso que nem um segundo porventura, e já eu me vejo odiando tudo aquilo com todas as forças. O que eu estou fazendo aqui, neste lugar, agora, assistindo a essa aula de direito constitucional, eu penso, eu olho para o professor, não sei do que ele está falando, penso no meu namorado, penso nas nossas noites românticas, no momento em que nos encontramos pela primeira vez, surtindo um efeito de amor à primeiríssima vista, me lembro de quando nos beijamos pela primeira vez também, noite especial, véspera de Natal e Ano Novo, me pego imaginando o que ele estaria fazendo agora, se ele estaria com alguma outra menina, a quem poderia se apaixonar e por quem poderia me trair pelas minhas costas. Começo a ficar, de repente, com raiva dessa menina a que desconheço, começo a apertar os punhos, a coçar as minhas têmporas alongadas pela distância do tempo da aula. E assim, como sem ter por quê, eu me pego imaginando o pênis do meu namorado penetrando a boceta daquela desconhecida pérfida e falsa e nojenta e estúpida, e estranhamente a minha própria boceta começa também a ficar úmida e gelada de um tanto que eu sinto vontade de gritar, de berrar para todo mundo ali que me deixassem ir ao banheiro mijar, no que eu chegaria ali e me masturbaria em vendo um desses vídeos pornô da internet cheios de violência para com uma menina jovem assim como eu. Não me entendam mal, queridinhos, eu mesma não quero que essa violência seja execrada em mim; mas, mesmo assim, eu gosto, eu amo, eu me lisonjeio avidamente ao ver esses vídeos em que a moça leva uma transa cheia de furor vivacidade e potências elevadas até ao sol sublime de nossos cântaros divinos. Ao que eu mesma pego esse cântaro e bebo suavemente o líquido fértil a que me fora concedido. Um líquido branco e espesso, cheiroso e lírico, tão versicolor quanto o é uma poesia de Bukowski, a que eu posso pessoalmente vir me suprir com todas as minhas ânsias indomáveis de fêmea! Começo a pender a minha língua um pouquinho para fora de minha boca, umedecendo os lábios meus, fechando um pouquinho os olhos, mexendo levemente no meu por-de-baixo. Uma amiga falsa minha me vê e se ri, e começa a falar baixinho para as outras colegas da sala provavelmente alguma coisa asquerosa que me repudia. As outras, por sua vez, também cochicham e se gargalham bem baixinho para não atrapalhar a aula. Eu fico então olhando ao meu redor. Todas aquelas pessoas cansadas de viver, esperando somente uma festa para que pudessem deixar de lado os seus papéis sociais e começarem a ir se esfregando uns nos outros, numa maior orgia possível qualquer. Aliás, diga-me você de passagem o que realmente mudara dos nossos mais prístinos antepassados aos nossos dias, sendo que atualmente ainda precisamos nos utilizar um pouco da droga, seja o álcool, seja lá a maconha e outras tantas outras, para pelo menos por um tempinho nos desvencilhar de nossa realidade absurdamente cruel e insensível a nós mesmos, para que o âmbito racional de nós pudera se expurgar por si mesmo, deixando a nossa própria consciência de lado, e assim sermos meros animais enfim, nos pegando uns aos outros, em nossas partes íntimas, tal como os deuses eróticos nos bem acalentaram em presságios plenos de força e de plenitude.
     Hoje, estamos aqui no shopping de São Paulo. Eu e minhas duas maiores amigas. Ah!, fazia tanto tempo que não nos víamos, parece que foi uma eternidade. Eternidade que durou em verdade apenas cinco dias, de um final de semana a outro tão somente. Até que enfim eu posso me divertir e falar sobre as minhas coisas, sobre os meninos, sobre a faculdade, sobre música, música popular brasileira, rock, sertanejo, rap, folk, música clássica! As nossas conversas são tão boas e plenas que eu me sinto quase como se tivesse nascido unicamente para falar com elas, eu e as minhas amigas, Isabela e Carol, com quem mantenho contato desde criancinhas, em quando nos encontramos num colégio da cidade. Sempre há novidades a contar, alegria a espagir, sutilezas, poesias, sublimidades. E ainda, quando estamos numa festa ou numa balada, aí sim é que eu posso finalmente dançar e pular e gritar alto, bem alto, bem explodido mesmo, até que enfim!, um divertimento!, na maldita prisão cinzenta em que vivo existe um divertimento! Oh, céus. Alguns garotos me achegam em perto, e alguns deles me são bastante atrevidos e atrativos eu diria. Aqueles ombros largos, aquelas costas firmes e eretas, retinentes, parecendo-me vir duma suma riqueza d'ouro transbordante. Homens encorpados, altos e belos e sublimes, me chamando com a mão a dançar, me levando pra aqui e pra ali, por vezes pegando nos meus quadris, por vezes pegando ligeiramente nos meus seios. Até que, enfim, me abraçam e me pegam em minhas nádegas feminis e flâmulas, e me dão um beijo que me faz perder totalmente a noção da realidade. Só estão ali eu, aquelas mãos que me excitam, aqueles braços fortes e endurecidos, e a sensação de doçura ao contato de língua a língua, de lábios a lábios, de sexo a sexo. Eu, então, lhe aperto as nádegas e lhe puxo os ombros para irmos ao banheiro, no que ficamos por lá em durante eternos e míseros seis minutos apenas. Um orgasmo escondido em mim adentro, a que eu nunca pudera em antes imaginar que poderia aquilo estatelar por sobre todo o meu corpo nu, estando tudo obnubilado por dentre o cotidiano tedioso em que vivo reiteradamente, se vê em plenos alcances e em anfractuosas sensações de prazer oscilante e duradouro. Eu me pego extasiada e fremente. Fremente de alegria, de felicidade, de prazer, de orgasmo, de poder, de potência, de vida! Finalmente, eu me sentia livre e liberta; a chave interna de minha própria prisão estando ali embaixo de meu umbigo, podendo ser aberta por um menino a que eu amasse. Eu pergunto-lhe qual é o seu nome, ao que ele me responde Marcos, e lhe falo sinceramente que estava por ele absolutamente apaixonada. Apaixonada pelo seu corpo, pelo seu pênis grosso duro e comprido, pelos seus ombros, pelas suas pernas bonitas e maravilhosas, pelo seu cabelo grande e embaraçado, por tudo, por tudo, por tudo! Eternamente estaria apaixonada por ele, faria tudo para com ele ficar. No que ele instantaneamente dá uma risada alta e desdenhosa, me dá um leve tapa na cara como se fosse eu um inseto retardado, e se vai embora para nunca mais me ver. Eu conto tudo isso à Isabela e à Carol, no por conseguinte, e ficamos todas juntas conluiando contra os meninos todos, contra esses estúpidos animais que só nos querem usar para ter prazer a si mesmos, esses egoístas e ególatras, eu digo, e elas me respondem, sim!, uns absolutos ordinários, todos são todos os mesmos, até o mais santo deles todos só sabe pensar em uma única coisa, não adianta nada nós nos apaixonarmos por esses estúpidos, quanto menos sentimentos tivermos por eles melhor.
     Outro dia outro ainda, eu, eu não sei bem por quê, me ativera atentamente a uma das funcionárias de um desses restaurantes de praça de alimentação dos shoppings. Era uma funcionária de cor escura, de minha idade, uns vinte-e-cinco anos, nova e bela, com um largo sorriso no rosto, parecendo tão pueril quanto o são as rosas da Europa em estação de primavera. Aliás, quão encantador ser não poderia se esconder por detrás de qualquer um que vemos numa rua ou numa avenida qualquer, aquele mesmo a que encaramos decidamente e vemos ter por face o rosto mais facínora a que possamos em toda a vida imaginar, e quão enganosos não são as aparências físicas de cada um de nós, aparência no entanto a que estamos perpetuamente presos e sucumbidos, como que ante uma divindade que nos faz sermos escravos de seus ditames morais, um dos quais sendo julgar os outros pelo que aparentam sempre ser ante os nossos olhos ridículos e humanos e mortais, não importando de maneira nenhuma as nossas vontades, que as nossas inclinações sempre nos fazem cativos e servos e parvos estúpidos! De qualquer maneira, eu fiquei ali, olhando para aquela moça, durante, não sei, uns vinte a trinta minutos, porque eu estava jantando sozinha. Irá, sim, com certeza, parecer cuzisse de minha parte falar isso, mas, sério, eu fiquei absolutamente destruída por dentro ao ver aquela menina tão feliz, esperando ansiosa a que um cliente qualquer pudesse ir comprar no local em que ela trabalhava, como se tudo aquilo fosse deveras um parque imenso de diversões, além do qual eram só paraísos transcendentes e sublimes. Ela parecia tão segura de si mesma, como se Deus a estivesse olhando especialmente. Como se só ela existisse no mundo para Deus. Em sendo que todos os transeuntes locais nem sequer paravam para olhar a ela, mas unicamente para olhar a um banner que ela mesma estava segurando, em cujo espaço ficavam os desenhos multicolores de pratos deliciosos do restaurante. Quando, depois, ela enfim passou a atendente do caixa, ela soltava ainda uns sorrisos tão prazerosos aos clientes que eu comecei a lacrimejar inconscientemente. Eu queria vir abraçá-la, beijá-la no rosto, dar-lhe um bom dinheiro, aconchegá-la e dizer-lhe que estava tudo bem, que a vida depois da morte existe e que era bom, que era maravilhoso e correto sempre ter fé em Deus, sabe, ainda que internamente soubesse eu que tudo isso seria uma mentira, eu queria, sim, eu queria, mesmo assim, contar a ela exatamente essa mentira, eu queria lhe abraçar carinhosamente e mentir, sorrindo, com lágrimas abissais em meu rosto. E ela me daria pois uns sorrisos completamente sinceros, puros, virginais, bondosos; e, enquanto que em meu coração interno eu estava despedaçada e crivada por facas e destroços pontudos, como se eu fosse um mártir de toda esta ignomínia em que nós vivemos, e na qual eu mesma estava incluída, eu soltaria a ela o mesmo sorriso puro e sincero, mas com uma vontade incontrolável de chorar convulsivamente e de cair num penhasco profundamente vazio, para nunca mais participar de nada que fosse deste mundo. Cada passo de sua existência parecia estar sendo olhado, cada sentimento puro em seu sincero coração parecia estar sendo vigiado, mas isto não por alguém que a rodeava, que eram todos só rostos vazios e enervados de tédio e rancor, ou de desdém e falsidade, senão que unicamente por algum ser invisível e transcendente em que ela mesma acreditava, e em que ela continuaria acreditando talvez pela sua vida inteira, com um semblante perdurado de sinfonia mozartiana, ao mesmo tempo que em seu redor ninguém daria a mínima pela sua existência. Era isto, sim, totalmente isto, unicamente isto, o que me estava lacerando e roendo com dentes sangrentos o meu coração, como se alguém o estivesse apertando com forças imensas sem que o pudesse esmagar em definitivo; porquanto a vida, por mais miserável que seja, por mais dolorosa e inútil que seja, sempre gera esperança de vida, apesar de estar também sempre sufocada de morte. Ninguém percebe a morte rondando constantemente toda a vida nossa. Mas eu percebo, e é como se eu fosse um médium olhando para um espírito a caminhar pela cidade. Eu vejo e ninguém vê. Eu choro e as pessoas me tomam por louca ou qualquer coisa que seja. Ninguém me compreende. E sou só eu que quero prestar atenção ao nulo miserável da vida que participa de nossas vãs existências. Querem falar que a errada sou eu, mas ninguém sabe que o errado está neles, e que não obstante o automático do hábito já lhes fez por tolos e cegos. E ainda, do que adianta eu falar alguma coisa? Pensar nisso nos deixa imóveis, improdutíveis, pobres, bobos, idiotas. Verdadeiros Míchkins a vaguear pela cidade. E se porventura o país ficar pobre, piorar-se-á ainda mais tremendamente a situação. Restando-nos muitas opções possíveis, todas as quais nos levarão irremediavelmente à morte, pois que desta nunca se escapa, ainda que a vida venha acompanhada da esperança. Pois veja, meu caro, que se, porventura, até a esperança for contaminada pela morte, não existirá definitivamente vida nenhuma. Por isso, ou temos nós uma vida repleta de morte apaziguada pela esperança vã e vazia, ou temos nós um belo e esplendoroso nada, um oco vacuoso do inexistente, a não-vida enfim.
     Agora, eu acabei de chegar em casa, e lá dentro encontro inesperadamente Carlos, o meu namorado. É meia-noite de um domingo. O que você está fazendo aqui, eu lhe pergunto. Ele me responde que quer conversar comigo. Eu pergunto por quê. Ele me diz que a Carol havia lhe contado por Whatsapp o que acontecera na festa. Eu fico paralisada, transida de tremedeiras, não sei o que fazer. O rosto de ódio dele me transtorna e me dá calafrios. Um instinto torpe de raiva por Carol me aguça os sentidos. Carol, sim, Carol havia me traído. Ela, que havia prometido não contar nada para Carlos, dera com a língua nos dentes mais uma vez, e é a quinta vez já que isso acontece. Carlos me diz que não aguenta mais as minhas traições, que aquilo tudo já lhe virou um inferno interno para ele, e que quer romper comigo definitivamente agora, de uma vez por todas. Mas eu não acredito e solto uma risada alta, para lhe irritar justamente, fazendo-lhe por troça, porque, não sabe o leitor, nós nos separamos quase duas vezes por mês, chegando a cinco vezes no mês de julho desse ano. Ele sempre diz que vai-se embora e sempre volta, este tolinho, o meu querido bobinho Romeu, o que está apaixonado pela magia da minha beleza nipônica. Que idiota!, eu penso; mas eu penso alto, e ele ouve o meu escárnio. Olho melhor, na penumbra. Ele está sentado numa poltrona, o todo bem comportado Carlos, que faz Medicina na Universidade de São Paulo e é quase sempre o primeiro colocado da turma, ao lado de uma mesinha sobre a qual se assentam algumas garrafas de cerveja e uns rolinhos de maconha. Ele me olha de uma maneira tal que eu nunca o vira assim antes. Um ódio que qualquer um que o conhecesse estranharia sobremaneira. Você bebeu, você fumou? Eu pergunto. Ele me diz que sim, que estava me esperando chegar. Eu estranho, ele não é de beber, muito menos de fumar maconha. Nós ficamos uns cinco minutos quietos, em um breu imergidos, num silêncio mortal, um tique-taque do relógio da cozinha ressoando um barulho de terror. Eu falo para ele que não vou contar mais nada para aquela puta da Carol, aquela linguaruda medíocre. Ele me diz que não precisa mais, que acabou, que este é o fim, que sairá dali e nunca mais irá ver-me novamente. Eu lhe digo com desprezo, vai embora então, mas não se esqueça de que as orquídeas são as minhas flores prediletas, que quando voltar, quero vê-las brilhantes e reluzentes, e aí a minha bocetinha gostosa será toda sua, disse eu, apontando para a minha virilha, com tom carregado de sarcasmo e de riso na voz. Ele me não diz nada. Eu lhe irrito mais, falando, por que você não diz nada?, ficou mudo por acaso?, vai embora, vai, vai, não quero mais te ver aqui, vai dormir na sua casa, amanhã você tem aula, vamos, seja um bom garoto, estudioso como sempre foi, fiel à sua namorada, certinho, comportadinho. Dissera eu aquilo, ao fim do quê, eu soltara uma risada de escárnio. E, porém, quando fui puxá-lo da poltrona, dizendo mais alguma coisa, ele, silenciosamente, puxou uma lâmina de debaixo do braço, e a assestou em direção à minha vagina, perfurando-a com voracidade, e criando em mim a pior espécie das dores que eu conhecera em toda a minha vida. Arrancou-a ainda, e me enfiou mais uma vez no meu estômago. Aqueles centros nevrálgicos de meu corpo propagando sangue e dor por sobre tudo o que havia em mim e ao meu redor. Aquele meu sentimento de raiva por Carlos, que me impedia de soltar as rédeas da minha libido, mesclada a outro de compreensão e de compaixão de tudo o que eu lhe causara durante tantos anos, fazendo-lhe sofrer por mim. Aquela reviravolta na história toda nossa de amor, de graça, de glória e de poesia em que nunca, em toda a minha vida, podia eu imaginar que acabaria nisto. Aquela recordação de que a minha vida fora toda em vão, de que tudo havia me consumido por completo, fazendo eu todos os dias tudo o que os outros me determinavam, nunca fazendo eu o que eu queria uma única vez, e o conhecimento de que era só isto o que me torturava dia a dia, estrangulando sadicamente as minhas vértebras, e de que era exatamente por isto que eu era tão impulsiva e descontrolada em termos de prazeres sexuais e de outras demais coisas. E, por fim, aquele conhecimento que eu tivera, pela primeira vez, ao ver os olhos sofrentes de Carlos, de que eu realmente estava causando, de fato, as suas mais íntimas desgraças e catástrofes internas, não podendo ele mais viver decentemente por minha causa, e ainda o conhecimento que eu me pegara tendo de que todo este inferno moral e existencial de Carlos me fora passado batido durante esses cinco anos de relacionamento extremamente conturbado, em prol de minhas próprias inclinações egoísticas, em prol das todas justificativas que eu me dava para assim tratá-lo de maneira tão horrível diante de seu amor mais puro e apaixonado, porquanto ele estava seriamente apaixonado por mim de desde o princípio, e eu não atinara com isso um dia sequer, não acreditando eu nunca no amor forte e autêntico dos romances, achando isso ser mera coisa para filmes ingênuos e simplórios, em nada condizentes com os dias atuais. Sim, todos estes fatores e fatos, eu os pensara por durante uns dois minutos, olhando para ele sofregamente. E ele estava silencioso. Parecia que tudo estava morto nele. Seus olhos humildes, submissos, sofredores. Seu aspecto franzino, cansado, dolorido. Eu o olhei, então, pela última vez, da forma mais profunda possível, como se naquele entrecruzamento de olhar houvesse mais do que vinte mil palavras, e lentamente fui me apagando por completo, dando os meus últimos suspiros.
     Antes de sumir, no entanto, eu não sei o porquê, a imagem da funcionária daquele restaurante aonde tinha ido me aparecera em viva pele, em viva alma. Ela me estava sorrindo. Alegre, cantante, como se tivesse mesmo dentro dela um Mozart. Sim!, verdadeiramente feliz! Por que a imagem dela me viera tão repentinamente à tona? Eu não sei. Sinceramente eu não sei. Mas, eu nunca mais abri os meus olhos novamente. As vidas hoje são outras. As histórias, no entanto, são as mesmas.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

O escritor

     Uma plateia inteira estava ali somente para aplaudi-lo. O trabalho que ele fizera em prol da humanidade era tão vasto e esplêndido que parecia impossível o seu caminhar pelas ruas sem que alguém o parasse, o cumprimentasse, e o elogiasse longamente por todos os seus inúmeros escritos, os quais tinham lhes dado um sentido mais autêntico para cada uma de suas respectivas existências, coisa sem a qual não poderiam sequer trabalhar, comer, transar, se manter, enfim, se alegrar em seu mais puro sentido. E deveras nunca houve para ele, de fato, do que reclamar, pois que outrora, em quando sendo mais jovem, sonhava dias e noites inteiros por ser um homem célebre e bem-quisto aos milhares pelas pessoas todas. Imaginava-se ele, então, numa cadeira de couro, ele sentado em posição de intelectual, com as pernas dispostas qual moça, uma bem junta sobre a outra cruzada, as mãos delicadas em cima do joelho de cima, seu aspecto corporal franzino, seus óculos salientes e espessos reproduzindo reflexos, a mesma cabeleira rebelde de Beethoven. Quem sabe, até colocaria uma de suas mãos embaixo do queixo, estando este no meio entre o indicador e o polegar, e os seus olhos não deveriam ficar demasiado sérios, porquanto soariam pura e plena esnobice, mas mesmo assim, os olhos estando bastante penetrantes, tendo eles um certo ar de misterioso, de pensativo, de metafísico. E ainda mais, quem sabe um terno, não muito caro, pois isto seria uma coisa de magnata, mas um algo que representasse um respeito sem denotar riqueza econômica, porque assim as pessoas veriam que se trata de um intelectual e não de "um simples magnata". Sim!, via na internet imagens do tipo, e a que mais lhe aprazia no imo era mesmo a foto excelentíssima do senhor Marcel Proust. Quando mais novo, queria ser igualmente um Proust, um Pessoa, um Drummond, e, ai de mim, o que não daria por uma posição dessas. E é até estranho de ver como as pessoas todas reverenciam com tanto ardor os escritores, sendo que a inclinação egoística destes talvez seja de tão grande monta quanto o pior dos psicopatas, em contraposição com os quais o objeto quisto dos das-letras não causa nenhuma repercussão social repugnável, tal qual ocorre com os segundos, o que é bastante irônico, porquanto se se impusesse aos primeiros ter de matar e canibalizar alguém como meio mecânico de conquista de seus próprios louvores, condição sine qua non e sem a qual o resultado seria unicamente a sua injunção na massa dos desprezíveis anônimos, ficaríamos totalmente abismados ao ver que, suponho, são justamente os maiores escritores da história os cujos que dariam pela conta paga, soando algo como esses atletas esportivos mais amados que tanto ambicionam a vanglória quanto mais são pegos em dopping e penalizados. A causa de eu estar escrevendo tal tamanho desaforo é a uma pergunta que um dia eu me fizera em quando lendo um poeta social; pois que será que ele trocaria a sua vaidade e a sua vanglória máximas a que tanto acalentara em vida pela salvação de um indíviduo pobre e asqueroso de uma sua propriedade, sendo que, de duas uma, ou ele o matava sem ninguém saber e se glorificava, ou ele o salvava e assim se submergiria em dentro de um mar convulso e incógnito da multidão, onde ninguém daria a mínima para nenhuma de suas vãs ideias e, muito pelo contrário, até escarneceriam do outrora escritor com os sardônicos mais cruéis e facínoras. Desta bifurcação, portanto, veríamos, em plena mostra, se o que mais vale nele para ele seria o amor que tem de si mesmo em propagando os seus ideais, ou se seria mais o objeto dos seus ideais que suplantariam toda e qualquer condição de si mesmo. Há autores que não possuem dúvidas de que seria o primeiro caso; mas ocorre que todos os segundos casos nunca nos foram, e nem mesmo o seriam, revelados. Também represento esta situação como uma mesmíssima que outra, na qual um sujeito de altos e grandes valores se vê em guerras contra outro país, ocorrendo que neste invade a casa de uma pobre jovem por cujas compleições recurvas e feminis o seu falo se endurece qual pedra afiada em posição de riste, entrando ele numa bifurcação de valores, a grosso modo racionais ou apetitivos, segundo os quais perpetrará ou não uma violência; e quantas infinitas e infinitas vezes isto já não deve ter acontecido neste mundo tão igual e mesmo, e quantas ainda não ocorrerão, à vista dos quais ninguém guardou nenhuma mínima recordação, em sendo que todos sempre voltam aplaudidos em chusmas de alegrias e esquecidos os pecados, os maridos estupradores tornados pais e avôs de uma criançada sob um luar doce e um céu salpicado de estrelinhas, feitas todas para os seres humanos as vislumbrarem. Com efeito, o cerne desta questão está em tudo quanto os nossos olhos não veem, sendo, a bem da verdade, bem melhor não o vermos, porquanto se víssemos um desgosto sem palavras nos usurparia que nem um tsunami uma cidade marítima.
     Mas o que eu não falara em antes fora que, quando ele se tornou de fato uma celebridade como tal, não digo tanto que se aborrecera sobremaneira para com as pessoas que lhe rodeavam, pois elas eram todas amáveis, mas como que as estranhara, olhando com desgosto a intimidade tamanha com que lhe achegavam em perto falando-lhe como se fossem amigos próximos de há anos. Porque, se no começo gostava muito da atenção que chamava a si mesmo, com o passar do tempo tudo se transfigurara em sua cabeça num execrável ramerrão, além de cujas bordas se transferia o sentimento ao tédio e ao desgosto irremediável. E ao ver ainda o quanto algumas delas se rebaixavam ao último degrau da existência para ver-lhe assim como se estivesse ele numa cristalização indefinida e vaga a vários quilômetros de distância em cima, tornando a conversa num diálogo livresco, onde mais se utilizava palavras cultas e eruditas que qualquer coisa outra, parecendo-lhe ridícula aquela conversa toda empolada, achou que o mundo havia chegado ao cúmulo do absurdo para com ele, o qual, por sua vez, naturalmente não sentia nenhuma afetividade real para com toda aquela turbamulta que o engrandecia. Se há escritores que gostam de tudo isso, há outros que desgostam, e por isso ficam reclusos; e também não constitui contradição nenhuma gostar e não gostar ao mesmo tempo. Aliás, se bem me recordo à memória, penso que fora Fernando Pessoa quem disse que os famosos são como animais no zoológico, abrindo-se as portas para um público completamente desconhecido se usufruir do espaço privado deles, não podendo eles mais cagar, aliás em todos os sentidos da palavra, sem serem vistos e vituperados com virulência, tanto pelo cheiro do pêido, como também pelo som das excrescências, e isto sem falar dos que vão olhar, avaliar e examinar a qualidade e a espessura das fezes, aumentando e exagerando o visto, o cheirado e o ouvido para reboar um boato cuja origem é desconhecida por completo. Como é o mais que natural, tudo isto fora arrepanhando, de aos pouquinhos, a integridade do nosso artista das palavras, deixando-o a cada dia mais enojado, e se perguntando pelo porquê de estar escrevendo "para tal gentalha"; e isto ele o dissera, ainda, em se considerando que na verdade suas palavras estavam mais voltadas era mesmo para a burguesia somente, porquanto era quem o poderia mais entender, a qual lia aqueles escritos, em cujos meandros se via uma clara exaltação da "gentalha", e se sentia "muito mais humana e melhor" depois o ler. Que elas estavam se tornando "muito mais humanas" depois de lido uma penca de poemas, isto eu duvido com todas as forças do meu intelecto, porque eu bem observo o como elas mesmas reagem às pessoas a respeito das quais se escreve naquela literatura, e elas me parecem não estar nem um pouco diferentes de como estavam antes, sendo a todos os mendigos de cada esquina de rua de todo indiferentes e alienadas, assim mesmo como o próprio escritor dos poemas, o personagem principal de nosso conto, o qual, se em poemas laudatórios é capaz de se rebaixar ao último patamar da existência em prol dos pobres e dos miseráveis, em vida real e factual ele foge deles correndo literalmente de um ponto a outro da cidade que nem uma criancinha, acorrendo a eles maiormente nos festivais e festas, por cujo meio a sua veneração se torna mil vezes mais retumbante e profícua, valendo isto mais a pena pois ali todos o olham.
     Mas, de qualquer maneira que seja, naquele dia, a plateia estava ali realmente somente para aplaudi-lo. A plateia sendo a burguesia em geral, alguns críticos literários, escritores de maior monta, agentes do Estado, jornalistas, historiadores, filósofos, e muitos outros mais. Estava ele ali presente na mesa principal, no meio do espetáculo que reunia uma multidão de gente, na parte do palco teatral, compartilhando da mesa com alguns outros intelectuais grandemente considerados. Uma moça jovem e loira muito esbelta estava lendo um arrolado das qualidades do escritor homenageado para que todos pudessem se informar de todos os livros publicados, das ações feitas na política, das filantropias magnânimes, das ajudas em hospitais e em escolas, e etc etc. Todos o amavam, ou, senão todos, pelo menos a maioria. Tinha afinal uma índole extremamente caridosa e simpática, sempre sorridente e amigável para com todos, pendendo por vezes à falsidade. Nunca lhe faltava conversa com ninguém, e sabia ele a hora de parar de falar para deixar o outro exprimir as suas opiniões e pensamentos de forma harmoniosa. Também recitava poemas como ninguém, aparecendo hora ou outra na televisão, como naquele dia mesmo, em que as repórteres estavam fazendo matérias especiais a respeito de sua homenagem na festa. Mas eis que, como todo o inexplicado da vida, se dá ali um imenso porém.
     No meio do discurso da jovem loira a respeito de um de seus mais aclamados livros, assim como sem quê nem para quê, o nosso escritor, como se fosse um tremendo bobalhão, começa, de chofre, a rir com uma sem-vergonhice tamanha que todo mundo queda mudo, não atinando com nada e não dizendo nada, somente a olhar para ele com incrível surpresa. Aquela risada convulsa não era nem um pouco cômica, nem humorísca. Era somente uma risada sardônica e ferina, parecendo ser projetada para todos ali a engolirem seco na boca. Seus dentes tanto se abrem quanto o fazem mesmo os seus olhos ardentes de acidez. Todos estão estupefatos, não acreditam no que veem, e julgam já ver o demônio se apossando dele, fazendo-lhe joguete de alguma energia outra que não sua. Outros já pensam que aquela situação é só uma brincadeira de muito mau gosto, não planeada direito. E, por último, há os que acham que a loucura domara posse do mesmo, tacanhando-lhe os ditames da razão e da dignidade. Parecia mesmo que o mal em seu sentido mais distinto se havia apossado de seu corpo, tornando-o todo assim um ridículo e miserável espécime dos sádicos. E, como se isso não bastasse, pois, jogou ele os seus óculos para bem longe de si com toda a sua força, correu para junto da loira e a beijou, tomando-lhe os seios, abrindo a braguilha de sua calça, e ejaculando rapidamente para junto dela. Ao que todos ao redor se alardearam e lhe partiram em cima e lhe seguraram todos os membros, enfurecidos. A sala toda estava aos delírios plenos, uma chama inóspita furiosíssima estalava trepidante no meio da agitação. Urros por toda parte insurgiam daqui e dali, ouvindo-se gritos de ódio chamando-lhe louco, hipócrita, porco e estúpido. Em quinze minutos apenas, toda a rede nacional de televisão e toda a internet já sabia do fato, e manifestações de claro repúdio ao escritor foram expostas que nem vírus por todos os recantos digitais. Parece mesmo até que queimaram os livros dele todos em fogueiras imensas e colossais, jorrando garrafas de vodka junto aos livros. E diz-se ainda que ele não conseguiu nem mesmo sair do local do espetáculo com segurança, porquanto a repulsa era tamanha que vários manifestantes à entrada da porta invadiram o local, driblaram os seguranças, e alcançaram o escritor num súbito, tratando de metê-lo tantas pauladas e chutes e sovas que não se precisou nem passar dez minutos para que estivesse inconsciente, e outros mais cinco para que falecesse em definitivo. E assim se dá o fim de nosso conto. Um fim brusco, cortante, em lapso crivado, que não carece de reflexões nenhumas, só de um fato disposto, que põe fim a uma vida e a uma narrativa, depois da qual se não pensa mais. A única coisa que eu precisava contar aqui era mesmo a sua morte. Pois que, depois disso, como é sabido, pouco se fora lembrado dele, ou quase nada, ou nada; e pois, se a maioria das pessoas repudia a minha sua lembrança, digo eu que estes casos peculiares de acessos à loucura extrema são as mais importantes situações para efeitos de um averiguar maior da alma humana, pois que é justamente aí que o submerso implode a si mesmo, de tanto que se não desafoga, e de tanto que a isto se violenta com martelos e serrotes, findando numa inevitável implosão interna, como numa bomba atômica, a deflagrar o caos e a desordem indomável do sujeito. O escritor, qualquer que seja ele, afinal, todos já o sabem creio eu, não passa de um ser humano comum, ordinário, ridículo, idiota.

sábado, 28 de outubro de 2017

A equilibrista

     O momento no qual ela se coloca diante do público é crucial. Foram meses, senão anos, de constante treinamento, a não se prover nos seus pensamentos íntimo-internos de nada que não seja daquela arquitetura planejada dos corpos entrejustapostos em sutis desenhos e rascunhos. São anos e anos inteiros, em cujo acúmulo resultam em décadas, cada qual a se amalgamar com rasuras e treinamentos contínuos, prístinos, cotidianos, ao sem-fim perpétuo, num esforço além-humano, conjunto este que nada mais representa do que os pensamentos abstratos materializados em concretude. Um pensamento imaterial se transfigurando em uma forma material. Se materializando e só podendo findar em alguma coisa bela, em alguma coisa hórrida, em alguma coisa complexa, de cujo sentido, porquanto, pouco teríamos de concreto e de evidente, dado que ali só se fala a respeito de coisas a que nós não vemos. E, exatamente porque a não vemos, não temos apreensão retilínea e uniforme da coisa, dando a que todo aquele projeto laborado em mãos da artista não pode nunca de fato ser compreendido, da maneira mesma pela qual não compreendemos ao certo o que significa esta ou aquela sinfonia, mas com cujo sentido podemos ter ao menos algum contato real e coerente que não o tão confuso contato que temos com ele todos os dias. Todo o engendramento pluriforme das artes nada mais representa do que a nossa tentativa, aliás sempre fracassada, de dar algum significado coerente a tudo quanto sentimos em nosso imo mais sutil e frágil. Tão sutil e frágil quanto esta performance da equilibrista, a qual, sem sentir nenhum delírio ou temor, vê que a corda em cima da qual se enraíza não está sendo segura por nada! Está pairada ela num breu; e, em se olhando para frente ou para trás, vê ela somente que a corda continua indo e indo, mas os seus olhos não conseguem entrever minimamente o que além dela se apresenta, e, portanto, não é tanto que a corda não esteja segura por ninguém, num vazio vacuoso e inerte, quanto o fato de que ela não sabe em absoluto quem a está provendo em segurança para a sua própria performance.
     Há bem quem diga que a sua performance é sublime e extraordinária, uma tal a que nenhum outro artista do gênero poderia sequer pensar em disputar a supremacia em concorrência. É ela ainda considerada por muitos como o símbolo magnânimo de genialidade em sua categoria artística, pois que todos os movimentos por ela efetuados parecem-lhes tão naturais que julgam ter nela encontrado a tangência mais próxima e alcandorada do divino, sendo que, se porventura alguém possui ainda a chance de ser divinizado nos dias atuais, este só pode mesmo ser o artista, à lato-senso, erroneamente confundido com a sua arte, a qual suplanta o primeiro grandemente por nela não haver mais tantos resquícios da esquizofrenia do real. Isto quer dizer: a artista que ali vemos não é a mesma pessoa que o que ela é no dia-a-dia, sendo esta última em muito inferior à primeira, chegando a ser cômico de tão discrepantes personalidades serem unidas num só e único ser. A bem da verdade, se acaso o público expectador soubesse de todos os detalhes da segunda, sua vida mais íntima sendo de todo devassada por completo, aposto eu que sentiria nojo nevrálgico imediato de julgar comparamentos da artista para com o divino, e rapidamente deixaria de isto fazer, pensando estarem sendo ludibriados por mera aparência do que veem em espetáculos; mas isto não passaria de mais uma outra ilusão, porquanto uma e outra pessoa, a artista e a terrena, são tão verdadeiras entre si quanto é verdadeiro que o mal e o bem existam sem relações de superioridade uma à outra num mesmo ser humano. Que aquela equilibrista tenha fetiches sexuais estranhos e peculiares, tal como sonhar constantemente que está sendo violentada por algum desconhecido encapuzado, com muita violência, e disto sentir o maior prazer possível a um ser humano em dádivas versicolores, isto ninguém seria capaz de minimamente suspeitar, visto ela ser tão querida e dada para os seus muitos amigos, a tratar a todos com respeito e dignidade, sorrindo-se em chuvas quase a sem-querer. E ainda, que ela tenha entremostrado tantas chances, em quando sendo mais jovem, de relacionamento amoroso para meninos que lhe repugnavam sobremaneira, e que assim o fizesse a todos eles unicamente por sadismo e por prazer de sentir os olhos alheios em querência ampla de si mesma, fazendo muitos meninos sofrerem feito idiotas por ela, que disso fingia nada perceber, dissimulando-se pura e ingênua, nada disso fora suspeitado talvez aos olhos de seus amigos um dia sequer, que eles mesmos estavam convictos de sua ingenuidade, e há de se pensar também se por acaso ela mesma percebia o que fazia.
     O picadeiro não existe. O público não existe. O circo não existe. Nada existe ali que não seja a equilibrista, a corda embaixo, e o tudo que ela carrega, com muito esforço e disciplina, com apenas as suas duas mãos. São inúmeros pedaços de madeira envernizados, projetados para o alto, os dois primeiros sendo os que ela segura com firmeza e segurança, e os demais todos, os quais chegam a uns trinta ou quarenta, habilmente colocados cada um em seu respectivo e pensado lugar, tudo o qual formando uma estrutura colossal de arquitetura artística. Uma arquitetura arvorada qual pergaminho que se dispusesse de maneira figurada em estacas segurando umas às outras. Um filósofo que por ali passou e viu aquela performance imponente escreveu um tratado sobre a sua arte, definindo como uma sua ontologia o equilíbrio. Com efeito, tudo ali poderia mesmo ser definido, também, como equilíbrio. Era quase que o equilíbrio segurando o equilíbrio, e ninguém seria, de fato, tido como patético ou redundante se afirmasse que ali, naquela obra magistral, era o equilíbrio equilibrando o equilíbrio. Parecia-me ainda que, quanto mais estacas houvesse, mais o regimento se sustentaria. Era mesmo como se a equilibrista fosse um maestro, com cujos ornamentos regesse uma ampla sinfonia, e com ela nos levasse ao pináculo do êxtase, quando quase todos os instrumentos são tocados com maestria e virtuosidade, num scherzo alegre e primoroso. E, como tudo o que se faz por obra não da divindade perfeita mas da humanidade imperfeita, aquela imagem espectral nunca ficava de todo estática e hirta como uma estátua prenhe de essências que nunca se transmuta um dia sequer. Ela toda era fragmentária e oscilante, não possuindo um significado único, porquanto o tratado do filósofo, muito apesar de bastante coerente, não dizia nada a respeito da sua raiz precípua e imaterial, mas apenas descrevia o que no abstrato podia fazer algum sentido. E ainda houve deveras um outro filósofo que a isto atentara com muita sagacidade, aduzindo ao fato de que naquilo tudo a que enxergamos não estava a essência do mesmo, não sendo a nós de maneira nenhuma útil ficar tentando tirar conclusões precipitadas em se olhando para todo aquele sistema complexíssimo de pesos e contrapesos, que a resposta mesma ali não estava. Onde estava ela porquanto? Ironicamente, o que definia melhor tudo aquilo se divisava, talvez, no seguimento da corda que sustentava a equilibrista, no espaço mesmo onde falamos nós que não temos conhecimento algum do que quer que seja.
     O mais surpreendente de tudo, no entretanto, se dava nos quandos de cuja corda daquela artista começava a tremer sem que ela soubesse bem o porquê. Chegava até a balançar impetuosamente, através de uma energia tão forte quanto incógnita, vinda de não se sabe onde, tal qual os abalos sísmicos da Terra que encadeiam efeitos desesperadouros por sobre as cidades humanas, perpetrando terremotos e tsunamis destruidores de qualquer civilização. A técnica que a equilibrista tanto acumulara durante anos nunca fora o suficiente para dar um remate definitivo àquilo tudo, e isto porque, não importa tanto o quanto se treine para um equilibrar suspenso, um milagre como esses de evitar tal catástrofe extraordinária não se podia dar em absoluto, tamanha a força com que a corda vinha a se tremular retumbantemente. De fato, alguns teóricos aventaram ainda a hipótese de que a corda, na verdade, está continuamente em borbulhas, e que no entretanto é só por efeito da eficácia das técnicas artísticas que isto não viria a ser em tão grande mostra a todos, se utilizando a artista de dissimular tudo, fazendo com que a sua obra excele em genialidade a todas as outras que porventura com ela possam concorrer em disputas. E ainda, que por os ditames da causa superarem em muitíssimo de forças qualquer vitalidade da artista, esta fatalmente viria algum dia a sucumbir, porquanto ninguém é tão capaz de manter tal plenitude de efeitos grandiosos por tão longo tempo.
     Assim, as perguntas últimas que podemos tirar disto seriam: o que sustém a corda que mantém firme a equilibrista?, por que a corda se agita convulsiva tal como se o fizesse involutariamente?, a equilibrista possui algum poder sobre a corda como afirmaram os teóricos, ou é ela simplesmente regida pelos impulsos incertos da mesma? São algumas das perguntas que carecem de respostas ainda hoje. Para mim, particularmente, eu sempre achei essa obra de arte uma coisa transcendental, um algo de gênio, tal qual a Sonata ao Luar, por cujas entrestreitas veredas eu mesmo me vou perdendo, às vezes me engrandecendo, às vezes me entristecendo, às vezes me alegrando ou me fazendo a chorar que nem uma criancinha. E eu estou ali, logo ali!, vês?, naquela diminuta partícula de lasca de madeira, sendo uma só vergôntea de toda esta sonata grandiosa. Meu corpo morrerá logo-logo, sim, daqui a pouco, não tem ele importância nenhuma ao universo, assim como você, assim como todos nós, assim mesmo como a equilibrista, a que dão comumente o nome de Deus, que seria só um Deus humano e antropomorfo. Mas, talvez, além d'Ele haja mais, que seria o seguimento de reta tendente ao infinito que o precede, a corda bamba enfim. E vá lá Ele também seja só mais uma lasca de madeira de um algo muitíssimo maior. Se assim o for, seríamos nós menores ainda do que já pensamos que somos. Aliás, temos nós alguma ideia coerente da nossa pequenez tamanha? Isso ocorre sempre, sempre que a equilibrista despenca no nada.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

A minha vida

A minha vida é um minúsculo e mínimo ponto-de-vista,
envolta da qual se divisam as correntezas magníficas e eternas,
a que eu, sozinho, nunca serei capaz de bem compreender,
e mediante as quais todas elas se retroalimentam
e se retrodestroem, com uma capacidade infinita e acelerada
de criação mesclada com mortificação redentória.
Da humanidade criar a bomba atômica e tudo destruir
é só um mínimo passo mínimo de tempo geológico,
condição segundo a qual tudo ocorre
sem que tenhamos domínio algum nenhum
por sobre cada um de nossos fados
por sobre cada um de nossos olvidos;
tudo convergindo em catástrofe
e tudo convergindo em olvido de catástrofe,
num ciclo peremptório a que nós seres humanos
só muito ilusóriamente
pensamos que temos algum domínio sobre;
pois que, se é certo que há tempos de ampla virtude,
também não é menos certo que destes se seguem
tempos execráveis de explosão impassível
de tudo quanto tentamos sempre inutilmente afogar.
A minha vida nada representa
não porque eu nada seja em um meio intelectual reconhecido,
ou porque eu pouco dinheiro ou reputação social tenha,
porquanto que tudo isso não passam de frivolidades de alma.
A minha vida nada representa, em verdade,
porque por mais que vejamos um translúdico céu ensolarado,
se pensarmos a bem a fundo por detrás desta epifania,
se me restaria apenas um universo negro prenhe de estrelas,
em cujo lugar, se eu até lá chegasse por algum acaso qualquer,
seria eu tão parvo e insignificante quanto o mais néscio dos homens.
Quanto mais e mais eu escrevo sobre o que eu penso e sou,
tanto mais e mais eu limito a vida inteira numa caixola sem alma.
Quanto menos de mim houver em tudo quanto escrevo;
e quanto mais houver de vozes infindas e transitórias;
uns se sobrepondo a outros que nem pisássemos
em formigas ligeiras que correm atrás de seus alimentos;
quanto mais humilhações houver de uns sobre outros;
nada fazendo sentido com tudo fazendo sentido;
cada qual a vomitar com nojo por sobre o inimigo;
e o inimigo de todos sendo também os todos enfim;
quanto mais hiperbólico for esse assistema;
quanto menos de mim houver nessa pluripartição de realidade;
quanto menos eu acumular de amor-próprio e de defesa de ego;
tanto mais se servirá, como numa sucessão de eventos sem-nexo,
a arte, a compor satisfatoriamente o que seria a minha vida.
Um lugar, enfim, onde ela, a vida, não tem espaço, ou porque
o universo espaço-temporal lhe esgoele e lhe esmague em demasiado,
ou porque a multiplicação de tantos outros eus lhe torture e lhe retalhe
como que num porão hiper-lotado onde nos faltasse ar.
O que é a minha vida? o que são as nossas vidas?
A resposta só me viria por contraposição ao que ela não é,
ao tudo que contra ela se lhe repercute em sonoridade latente,
visto que uma definição de dentro para fora só lho embairia.
O que é a minha vida? eu não sei, pouco isto me importa,
e não sou eu de verdade quem escrevo em quando escrevo.

sábado, 14 de outubro de 2017

Uma tarde num café

Quantos mundos diversos nós não desconhecemos por aí,
simplesmente por sermos tão limitados a nós mesmos?

Eu abro livros que me interessam.
Percorro livrarias que me interessam.
Converso com pessoas que me interessam.

E a cada interessar-me distinto reitero
um desinteresse muito maior
por uma quantidade muito maior de livros;
uma recusa completa de pessoas e de livrarias;
um virar-as-costas absoluto contra uma multidão.

Afinal de contas,
ao se me imiscuir tão completamente por autores literários,
quantas situações e ambientes existenciais
eu os não deixo desapercebidos por aí?

Passo, por exemplo, nove horas num café lendo tranquilo,
relanceio dois ou três olhares para as atendentes,
e de tão empolgado que me mantenho com o livro,
não percebo em absoluto o mau humor de uma funcionária.

Eu me importo para com ela?
É óbvio que não; me importaria só em kantianamente,
ou falsa e abstratamente como o fazem sempre
os poetas líricos e os religiosos.

Mas eu fico curioso em saber qual o julgamento dela
a respeito de tudo aquilo: os clientes ricos,
os agradecimentos falsos, os olhares de desdém
a ela voltados, o fingimento da sua não-existência,
o dever que ela possui de tratá-los bem,
ao contrário do qual receberia uma chamada de atenção
ou mesmo um xingamento perverso de um cliente,
e os todos muito-obrigados ditos robóticamente.

Eu peço um capuccino pequeno e um pão-de-queijo.
Ela me vem e me traz tudo às exímias perfeições.
Um pão-de-queijo quentinho esquentado na hora,
e um capuccino cremoso com um desenhinho em cima,
talvez um desenho de uma flor viçosa e transparente.

Eu lhe agradeço em bom tom
e lhe faço um leve sinal com a cabeça.
Ela me não diz nada, nem mesmo me olha,
e vai-se embora.

Por que coisas passou ela naquele dia?
Por que coisas passou ela em sua inteira vida?
Qual é o tamanho de seu ódio por todos os clientes?
Quanto já não sofreu em vida para estar ali?
Já teve namorados?, já amou?, ou mesmo
fez já algo que lhe gratificou de um tanto a existência?

Os clientes vêm todos em grupos,
se sentam em duas a cinco pessoas,
se riem e se gargalham entre si,
falam mal de um tanto de gente,
se sentem libertos por poderem finalmente
ser sinceros com alguém em vida,
fazem confissões boas ou más,
se divertem uns com os outros aos bocados.

As garçonetes lhes trazem os lanches e os cafés,
eles agradecem sem perceber que agradecem,
eles comem sem perceber que comem,
pagam a conta e vão-se embora.

O que é toda aquela conversa sobre arte,
sobre política, sobre literatura e sobre fofocas
para aquela funcionária de mau humor?

Ela os olha como se olhasse para uma parede,
esperando tediosamente que alguém lhe acene
para que possa atendê-lo ligeira,
ou esperando também a hora de ir-se embora.

O muro que se ergue entre clientes e funcionárias
é ali de um volume tão grande quanto invisível.
Gritasse a funcionária um pouco mais alto em rebelião,
e este muro lhe cairia em cima tão pesado quanto invisível.

Os clientes muito provavelmente se sentem satisfeitos.
Se orgulham, por exemplo, de terem nascido
em época de tantos direitos conquistados,
de tantas tecnologias engendradas,
chegando mesmo a algum tipo de inteligência artificial,
e assim permanecem convictos da beleza de sua era.

Eu continuo a ler.
Eu continuo a observar as pessoas.
Eu continuo a observar aquela funcionária.

Mas, de repente, eu sinto vergonha.
Eu sinto vergonha, de repente. Uma espécie inaudita
de asco e nojo por mim mesmo. De repulsa mesma
pela funcionária e pelos clientes, pelo pão-de-queijo,
pelo meu livro, e pelo capuccino; tudo o qual
se me revira com um gosto amargo em minha boca.

Eu sinto vergonha de tudo e de todos,
e me pergunto pelo porquê de eu estar lendo aquele livro
em sendo que o mundo de todas aquelas pessoas naquele café
permanecem-me tão incógnitos quanto já o era
antes mesmo de eu aprender a ler.

A pergunta de sempre me repassa pela cabeça
mais uma vez, dentre tantas outras vezes
que já passaram e que ainda estão por passar:
pois que conheço eu, de fato, aquelas pessoas?

Será que tudo isso o que eu descrevi
não seria apenas uma formulação do que eu penso
que vejo, um conjunto inerte de tudo quanto eu sei
a respeito do mundo e de mim mesmo,
e que eu mesmo projeto nas pessoas?

O poeta, ao descrever as pessoas,
não estaria por si só incorrendo ao erro
de descrever apenas a si mesmo
ou apenas as suas inúteis ideias?,
se tornando o descrever de si mesmo
não tanto um atestado reprovável de egolatria
quanto uma mera e pura sinceridade
de escrever só mesmo sobre o que sabe de fato?

Ou o mesmo com a Natureza.
Em se a fazendo descrita, quem ele descreve
a não ser a si mesmo projetado na Natureza?

Quantos mundos diversos nós não desconhecemos por aí,
simplesmente por sermos tão limitados a nós mesmos?

A funcionária, afinal, não gosta de seu trabalho.
Queria ela estar em outro trabalho, mas ocorre que,
devido às suas condições, não lhe restou tanta opção.
Só faz ela o que lhe pedem no serviço,
o que é o necessário para o seu sustento.
A sua relação com os clientes é feita
somente no âmbito profissional, pois que é só isso
o que lhe compete, e isto ela faz
de modo um tanto eficiente e preciso.
Infelizmente, ela se separou do marido,
e eles vivem em brigas judiciais por motivo
dos filhos, os quais lhes preocupam
pois pouco tempo possuem para educá-los,
e é um e outro brigando todos os dias
pela custódia deles.
Como poderia ela sorrir feliz ainda,
com os seus tantos problemas financeiros de dívidas
a pagar? A sua mente se abastece de problemas.
Tantos problemas quanto se é possível imaginar.

E os clientes ali só querem falar a respeito
do assunto que tanto lhes apraz: o cinema.
Saiu um filme novo, e eles acabaram de o assistir,
e querem debater sobre o assunto de maneira descontraída.
Porquanto que passaram a semana também com problemas,
muito atarefados em seus respectivos trabalhos,
além de terem tido um tanto de tarefas domésticas,
e de terem brigado com as suas respectivas esposas,
como sempre por causa de questões ínfimas.
Para que diabos, portanto, iriam se preocupar
com a mulher que lhes serve o café, em sendo
que tantas e infinitas questões lhes passam de por-já
pelas suas mentes no mais comum e ordinário dos dias?
O que se ganha em se prestando uma mínima atenção
a uma pessoa totalmente desconhecida
que me serve o café e o pão-de-queijo
numa tarde em que almejo só mesmo é me divertir?

E ainda, aquele jovem ali de uns vinte anos,
que tanto gosta de estudar, e que passou
umas nove horas diretas aqui lendo Proust.
Sim, ele!, por que diabos ele não cala a boca,
lê o seu livro na sua, e simplesmente
não se vai embora sem ficar nos analisando,
achando muito ingenuamente
que sabe alguma coisa a nosso respeito,
sendo que sabe é coisa nenhuma de nada?!

Oh!, valha-me Deus por esta espécie de homens
chamados homens das letras! Malditos...
Quando é que eles extinguir-se-ão afinal?!

terça-feira, 10 de outubro de 2017

O cortejo

     Foi preciso uma boa dose de coragem para que João se prorrompesse instantaneamente ao lado de Vitória. Aquele dia lhe causara um não sei quê de percalços e estorvos daninhos os quais, por mais bela que se achasse a existência sua num aorredor aconchegante de umas trinta a cinquenta pessoas naquela festa, mais lhe dava a impressão de estar absolutamente só consigo mesmo do que realmente conectado com aquela balbúrdia de crianças jovens adultos e velhos, todos alegres e muito meio bobos. Pois, ainda que conversassem sobre um sem-número de aventuras que se lhes engrandeciam aos olhos dos demais sobremaneira, João sabia em seu mais fundo íntimo que tudo aquilo transbordava mais de mentira que de verdade, e que, se porventura verdade pérfida e horrorosa havia ali escondida alegre e saltitante, a mentira logo-logo a relevava, tornando o pecado uma coisa menor, como de fato sempre o é em quando se encontramos com gente que a respeito dele nada mais acha senão pilhéria moral. Afinal de contas, cada agrupamento humano possui ao redor de si um núcleo de premissas a partir das quais se rege a moral e o campo valorativo de fulcro que condicionam os troncos, as folhagens, os gerânios, as rosas purpúreas, os cálices sagrados, e até mesmo os espinhos e os venenos dessas plantas movediças e volúveis. Geralmente sempre existirão indivíduos que se encaixarão como em joguinhos de lego neste assomo de preceitos, bem-amente como ocorre com os meninos e com as meninas solteiros e solteiras, em cujas ânsias e expectativas de se arranjar um parceiro adequado se fazem de tal modo que acabam sempre encontrando de fato alguém que se lhes aconchegue bem o ninho doce do mais íntimo. Problema maior, entanto, está sempre nos quandos de cujo sujeito não se encaixa direito num determinado grupinho, e ainda assim ele se mete a tentar se encafuar ali de todo e qualquer jeito, forçando algo que deveria ser o mais absolutamente natural. A amizade, afinal, deve de ser espontânea. Assim a amizade, assim o amor, assim a vida e a morte. Felicidade forçada é um contrassenso. Amor forçado é um contrassenso. Amizade forçada é um contrassenso. Despautério maior que estes não podem nunca haver. O enigma maior que fica sempre, de resto, é saber pelo quê o nosso espírito terá o que se chama amor, felicidade e amizade; e por quanto tempo. E isto porque não é só o amor que é um pássaro rebelde, como se diz na ópera belíssima de Bizet, Carmen, mas que quase tudo o que nos circunstancia e nos circunscreve parece também se proceder como se fôssemos umas crianças boêmias, em muito incertas, sem fórmulas, sem essências, quase puras contingências, destituídas de generalização, mais próprias a voar que a se encalacrar. Mas o voo é sempre um perigo. Um arriscar-se perigosíssimo que no futuro ou seja em glória ou seja em linchamento. O passo autêntico é afinal um passo de delírio. Um passo de vertigem. Pisa-se em corda bamba e esticada sem firmeza, qualquer relance dando em morte. Todo mundo que se instala na zona de conforto observam os que tentam voar. Acham, muito ingenuamente, que voar sempre dá em bom. Sim, veem um ou dois que voaram e se glorificaram, batem mil palmas, se inspiram. Mas tudo em detrimento de outros tantos milhares que voaram e foram presos, torturados em cárcere, cegados a ponta de faca, decepados os membros, ridos qual fossem palhaços, ou esquecidos na história. E tudo unicamente porque foram sinceros demais da conta, se mostraram como não deviam se mostrar, disseram coisas que deveriam se permanecer caladas. Pois que o poeta, a partir mesmo do momento em que clareia uma região existencial específica, tal qual a morte do leiteiro em Drummond, descaracteriza assim mesmo, no simples descrever, a pior das características do acontecimento: qual seja, a de que o fato não existe em âmbito público, para quem nada disso aconteceu. No que dá no inevitável indescritível radical dessas pessoas que tentaram voar em vão. O indescritível sendo o fato disso se ter sido esquecido completamente pelas pessoas. Descrever isso é assim, por si só, um descaracterizá-lo. A contradição ocorre no momento mesmo em que se clareia o escuro, sendo este a plena escuridão. Como clarear-se-ia o escuro, afinal? O escuro é inclareável, permanece numa zona onde a literatura não alcançará um dia sequer, ficando esta aberta sempre aos que deram certo; mas os que deram certo são a exceção, e a exceção não vale a regra; um poeta poetizando um acontecimento não faz mais que transfigurar a regra em excessão, traindo-a no seu ponto mais crucial, num de seus liames mórbidos essenciais. Um ponto muito luminoso num canto não serve de nada se visto de outro ponto de vista, ou seja, se se apontar para o breu completo que se lhe rodeia. Há os que preferem olhar tudo de baixo para o cimo luminoso; eu prefiro olhar de cima para o embaixo das escadarias que não levam nunca a lugar nenhum.
     Ocorre que os leitores não sabem o porquê de eu estar escrutinando tão bem a fundo a respeito de coisas que nada têm a ver com o título e com a primeira frase deste conto, a estória de João e Vitória. Porquanto João era um jovem bem querido daquela turma, se socializava com quase todo tipo de gente, se comprazia com cada um, contando-lhes anedotas engraçadas, passando-se até mesmo por um idiota, pois que as suas piadas na maioria das vezes não possuíam tanta graça, e os outros mais estavam a rir dele-João do que propriamente de suas piadas. Era um sujeito curioso, engraçado de jeito, graciosamente inteligente e perspicaz, gostava muito de fingir-se de bobo, porque na verdade ele sabia mais que todos ali a respeito dos pormenores franzinos que se transcorriam, e apenas fingia não saber de nada. Era somente um jeito que arranjara de se divertir, o sublime estando mais na estupidez do que na lucidez. O sério para ele, afinal, mais atoleimava o sujeito que o engrandecia. Tinha dentro de si um mundo tão derruído em análises psicológicas, pensamentos reiterados, problemas, questionamentos, um caos de parte a parte, que era até estranho o ver assim tão alegre e feliz com todo mundo, se animando como se fosse uma criança totalmente ingênua e descuidada. Seria igualmente o ver Clarice Lispector se portando como se fosse uma menina bem comportada e demasiadamente feliz em alguma Santa Igreja. Que João era permanentemente zombado pelos demais ele já sabia de desde o primeiríssimo momento, e todo mundo se divertia com o fato de ele não estar sabendo minimamente do que falavam a seu respeito pelas costas. E o que ele fazia em troca era sempre se rir, se alegrar, e mais ainda se animar com tudo e com todos, como se nada estivesse acontecendo, ele não sabendo de nada, as pessoas fossem todas puras e morais. O que ele fazia? Ele mentia. O que as pessoas ao redor faziam? Elas mentiam. Quem estava de fato sendo elas mesmas ali naquela festa? Ninguém. O momento de encontro social entre amigos e colegas daquela alta sociedade era geralmente um momento de mistura líquida e vaporizada entre ficção e sinceridade, sinceridade e ficção, predominando sempre a mentira. Todo mundo se sentia sozinho ali, mas todo mundo mentia, no todo embaraçado de outras tantas almas venenosas e bonitas. Na verdade, o que explicava o fato de as pessoas ali estarem se sentindo sozinhas no meio de uma multidão era justamente o fato de que quem interagia umas com as outras não era bem elas mesmas, mas sim uma versão social delas. E assim, por mais palavrosos que fossem os papos dali, ninguém se sentia verdadeiramente abraçado por ninguém, porquanto que abraçar uma imagem não surte efeito algum para esmaecimento de solidão e abrigo de alma. Se sentir melhor que os outros não constitui se sentir aconchegado pelos outros. Admiração não é acalanto. Respeito tampouco.
     E sobre Vitória? O que se pode aventar a respeito dela? Vitória era sim uma jovem bonita e esbelta, inteligente, muito sensata e racional. Todas as suas maneiras pendiam ao equilíbrio das partes, cada seguimento de sua alma lhe refluía como que dando passagem coerente a cada um de seus humores, sendo a bem da verdade que ela quase nunca "se mostrava" verdadeiramente a ninguém. O menino que de mais longa data a conhecia, Marcos, dizia que sobre ela pouco sabia, apesar de já terem estado tanto tempo juntos e amigos. Falava que até arriscava perguntar-lhe sobre sua vida mais íntima, mas que tudo fosse em vão, que ela se utilizasse de desculpas, e que o assunto sempre se restava a problemas impessoais ou próprios de Marcos. Mas no fundo nem mesmo Vitória sabia direito por que se reservava tanto assim. Para ela que fosse o mais sábio nunca fazer confissões a ninguém, sempre se manter absolutamente direita e firme, e derivar disso uma sabedoria muito coerente com o justo meio, coisa afinal em que nenhum grande homem chegara, porque o simples fato de ser grande já deturpa o adjetivo meio. Certo dia, eu mesmo lhe viera em perto, e lhe perguntara de maneira risonha e meninosa sobre o porquê dela nunca se abrir a ninguém, pois que de tudo quanto sobre ela sabia nunca ouvira falar em livro nenhum, a literatura sempre se envaidecendo com sua falsidade sábia ou se chilreando com seus grasnidos de corvo, ao fim do quê ela se me riu bonitamente, me olhou como se eu fosse um idiota bobinho, e me perguntou: "Mas o que eu ganho com isso?". Eu me deliciei no momento com essas poucas palavras singelas. Via o grande brilho eterno de seus olhos, marejados em certa pureza, e aprendia bastante com eles. E o que ninguém suspeitava ali, por causa de seu recato bem dosado, era uma certa ferocidade de fêmea, que ela me transmitia também pelos seus olhares, juntamente com as suas maneiras, os seus decotes, as suas saias. Ela transbordava libido, e eu sentia, e eu ficava imaginando cada um de seus fetiches sexuais, me esticando ao completo ao por de-dentro em vendo os seus delineamentos recurvos femininos e flâmulos, me enamorando com aqueles medidos seios redondos tão leves e brancos quanto uma gelatinosa suculência revolta em algodão sortido de leve peso pueril. Chegava então na imaginação de sua rosa, um fruto engenhoso da primavera divina, e me entontecia em repleto com todos aqueles pergaminhos da natureza. Dádivas oferecidas pela mãe Terra a mim, que me comprazia todo só no de vê-las. E era bem estranho como eu, num repente estalado em pólvoras de marfim, me mudava os humores em trezentos e sessenta graus em sempre quando Vitória se me apresentava nas minhas sensações e memórias. Parecia até que o mundo todo ficasse subitamente mais belo, não houvesse mal algum em parte alguma da Terra, o universo fosse feito todinho para que nós o pudéssemos contemplar. Que sentimento era esse? De onde provinha tudo isso? Eu não fazia a menor ideia, mas de gostar, sim, eu gostava.
     Voltemos então ao começo da nossa narrativa. Foi preciso uma boa dose de coragem para que João se prorrompesse instantaneamente ao lado de Vitória. Por quê? Justamente porque o que ocorreria no por conseguinte daquilo tudo era um voo. Era um passo a mais numa corda bamba, em cujo liame se manter firme era tão difícil quanto entrar no meio de um batalhão de guerra, atulhado em meio a metralhadoras e dinamites. A coragem que João necessitava era enorme, e ele não queria de fato se embebedar de álcool para isso. Se limitava ele a,  no meio da grande ficção e velamento quase que completo dos desejos reais sinceros e autênticos de todos aqueles jovens, os quais muito bem tentavam se esconder de todo dos outros para se protegerem ou serem maior e falsamente engrandecidos, — se limitava ele a ir em direção à Vitória e dar-lhe um beijo, com isso abrindo-se totalmente os seus desejos sinceros mais profusos e profundos, se mostrando a ela desnudo de artimanhas de máscaras, fazendo-se cativo dela, prostrado sem nenhumas armaduras; e, diante daquela corda bamba do trapezista, cabia a João, o sumo artista, somente dois destinos possíveis, como sempre ocorre em momentos como este, em cujo quedar abala o sistema harmonioso do total social: ou lhe ocorreria a absoluta glória, ou lhe abateria a execrável modorra. Estou sendo exagerado?, pois digo que até mesmo Napoleão se abatia em suplícios diante de suas amadas. João, então, sem que ela se desse conta de que ele ali estava, a pega pelos braços, todo trêmulo e disparatado, e a beija longamente, num beijo tão forçado quanto apaixonado. Ela se paralisa por completo, fica toda retesada, não consegue abrir direito a boca, mas abre bem os olhos inquietos, e sabe que quem ali está é o João, o da faculdade, o que tanto gosta de conversar com ela a respeito de todos os assuntos eruditos e intelectuais. Ela dá um passo para trás, rápida e ligeira, e o empurra com toda força para fora de si, atônita. Seus olhos parecem querer dizer: "Mas que diabos é isso?". Eu esboço alguma resposta, mas João não consegue dizer nada. Passam-se uns quinze segundos tão lentos quanto o é o perdurar dum século. Eu engulo seco. João se aproxima um pouco, parece suplicar um beijo, um outro beijo. E algum feitiço advindo de não se sabe onde recai em costas de Vitória, transfazendo-se ela duma amiga a pretendente num estalar seco de dedos. Por quê? Como? Onde? Quando? Eu não sei, não faço eu a menor ideia. Eu lhe dou, assim, outro beijo forçado em ímpeto, desta vez muito mais feroz, rapinante e delirante. E ela se debate um pouco, mas vão se esbatendo aos pouquinhos as suas forças, rompendo os ligamentos internos, desligando os sistemas racionais e solenes de sua alma. E com um pouco de tempo vai correspondendo ao beijo de João, sentindo algo que nunca havia sentido em vida. Uma inflorescência de alguma coisa boa e bela se inflama adentro de Vitória. Ela não sabe bem o que é, mas sabe que é bom. Parece-lhe que está transcendendo toda uma camada de existência, se aproximando mais e mais de si mesma, deixando o social de lado, se afeiçoando ao autêntico de si, e se o abrindo para João, que ali repousa qual neve macia em campos de pradaria num inverno ensolarado. O romantismo lhes rapina, com voracidade tremenda, de tudo o mais. Não sabem mais ao certo em que mundo estão, e o beijo se infinitiza ao descontrolado.
     Todos ao redor da festa os olham, então, com uma cara de contrafeita, repudiando aquele beijo nojento e estúpido, tão fora do bom senso. Estão afinal em uma festa extremamente elegante, performática, culto máxime dos endinheirados da cidade. Amigos altamente quistos e famigerados. Ali se assentam predominantemente senhores e senhoras já de idade. Magnatas filantropos e intelectuais insignes. Moralistas que veem com asco a concupiscência desregrada da juventude. Pois que toda aquela cena que descrevi nos parágrafos anteriores se passara bem ali, no meio da elite intelectual e econômica de São Paulo. O que houve? Bem, uma cena esquisitíssima de cortejo, absolutamente fora de contexto, dada em desvio por causa de uma paixão em muito descontrolada e destalhada de João Becker de Freitas, um jovem estranho que possui alguns problemas psiquiátrico-psicológicos e que fora, juntamente com Vitória Weber, uma estudante de medicina da Universidade de São Paulo, expulsos da festa empresarial de Mário Watanabe, que no momento estava comemorando o aniversário de sua empresa. Diz-se que a festa continuou cheia de drinques e aperitivos, que a comida estava ótima, e que felizmente o senhor Freitas havia sido levado para bem longe dali. Que todos tiraram o maior sarro dele, isto já não é de duvidar.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Uma lição literária

Eu vejo buracos em tudo.
Pequeninos 
buraquinhos em minha pele.
Na pele das pessoas, vários buraquinhos,
encorpando o exterior de tudo.

Eles me causam um desconforto.
Um desgosto físico-sensível.
Como se a nossa natureza
nos alertasse de que nisto
se entranhar é perigoso.

Igual que víssemos
vísceras
por diretamente.

Mas eu me aproximo
cada vez mais.
E cada vez mais
me é difícil
fingi-los inexistentes.
O meu intelecto combate
o meu corpo. O meu corpo
inflige o meu intelecto.

Ninguém os vê (os buraquinhos)
a não ser que sejam treinados a tal
ou naturalmente sensíveis a isso.
Talvez seja uma mistura de ambos.
E uma vez sortidos nós
não encontramos caminhos de volta.

Aos mais sensíveis a eles,
os buraquinhos infernizam 
a vida da pessoa.
Pode ela se suicidar por isso.
Geralmente são os artistas.

E diz-se que os mais sábios
são os que os veem
e não se entristecem por isso.
Os veem com total nitidez,
enfrentam e seguem eretos!

Mas pergunto-lhe: como pode
uma pessoa ser feliz com o intelecto
tendo o sensível tão prejudicado?
Só pode mesmo isso ocorrer
se o intelecto cegar o sensível.

E ademais: em tendo o sensível tão prejudicado
como pode o intelecto
também não se entristecer?

Talvez o mais sábio então
seja esconder todos os buraquinhos,
para que o intelecto se alcance em auras plenas.
(Mas isto é exatamente o menos sábio).

E disto tem-se duas alternativas:
Ou se perscruta os buraquinhos de perto
e fatalmente o intelecto se angustia com dor.
Ou se no-los esconde com perspicácia
e o intelecto se servirá de toda a sua potência.

Do primeiro grupo temos os ácidos:
Franz Kafka, Liev Tolstói, Clarice Lispector.
Do segundo grupo temos os doces:
Rubem Alves, Manoel de Barros, Mario Quintana.

Não existe bem o certo e o errado.
O verdadeiro e o falso. O autêntico
e o inautêntico. Mas geralmente,
os dois misturados não fazem muito sentido.
E a obra sempre gira ao redor do autor.

Daí provém a repartição tão necessária
entre Álvaro de Campos e Alberto Caeiro.
Porquanto que este duplo está presente
na verdade, é em todos nós.
Cabendo ao artista o seu foco maior
em um, ou em outro.

Pois-pois, então, uma coisa é certa:
Quer mostrar os buraquinhos nojentos?
Então não vanglorie o intelecto, o sujeito.
Quer vangloriar o intelecto?
Então não mostre os buraquinhos nojentos.

Vangloriar o intelecto, e depois
mostrar os buraquinhos nojentos
soará ironia, sarcasmo, humor.

Mostrar os buraquinhos nojentos
e depois vangloriar o intelecto
soará ingenuidade, idioteza, burrice mesma.

Pois está aí dada portanto a lição:
Nunca misture sorvete
com batata-frita. 
O sabor é horrível.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Um diálogo

     A: — "Se falarmos porventura que é o Sol o cujo que rodeia a Terra: estaremos certos ou errados?"
     B: — "Sob o ponto de vista de quem? — Do universo eterno, ou da Terra transitória?"
     A: — "Da Terra transitória."
     B: — "Acho que pois, estaremos mais certos que errados."
     A: — "Mas e sob o ponto de vista do universo eterno?"
     B: — "Bem, aí estaremos certamente de todo errados."
     A: — "Mas nós não erraríamos se por acaso puséssemos o nosso ponto de vista tão perto de nós?... Quem afinal seria tão tolo de assim o proceder? Só um idiota confereria-se tão grande monta de apoio intelectual. Confiando nos próprios sentidos, confia no erro, no embuste, é certo."
     B: — "E por acaso existe prevalência infinita de um ponto sobre outro?... Há casos e ocasiões em que um se é mister falto, enquanto o outro é melhormente quisto. Mas isto vice-verseia de acordo com as contiguidades. Entende?"
     A: — "Ah!, como eu odeio este seu relativismo!"
     B: — "Cada ponto de vista é o mais próprio útil para fazer calar a boca de muitos dos demais."
     A: — "E onde afinal está o seu ponto, já que pensa que tudo são lupas e lentes?"
     B: — "Em nenhum e em todos os lugares. Tudo são pontos, aqui e ali, ali e aqui. Chamam isto correntemente de pós-modernismo, é certo. Mas os artistas, escritores, de Machado a Shakespeare, de Tchekhov a Dostoiévski. Se por acaso eles fossem mais filósofos que artistas, ou seja, mais dogmáticos que relativistas; se acaso assim o fossem maiormente, seriam muito menos apreciáveis, eu lhe asseguro. Se o filósofo entra muito em cena na literatura e rapina os pontos de vista diversos ao que lhe tange, destrói e corrói a arte, acaba com as perguntas, inflama somente umas poucas respostas inertes, toscas. Nunca é tempo de acabar com as perguntas. Sempre elas se renovam em desdita ao descontrole."
     A: — "Tu és um tolo! Nunca chegarás a lugar nenhum assim. Perderás tudo em vida, porque afinal não conseguirás te firmares em nada, em nenhum ideal, em nenhuma ideia, em nada, em nada!, nem mesmo em uma única mulher. Largarás mulheres como se fossem velas que se apagam suavemente. E voarás!, — é certo. Mas voarás sempre sozinho, solitário. Um idiota, você... sim, certamente um egoísta."
     B: — "Os metafísicos afinal não seriam egoístas por fado próprio? Em se não vivendo direito no mundo, veem este por cima. Mas para tal, precisam se lhe apartar bruscamente. Assim ocorre com eles mais que comumente."
     A: — "E tudo isso pra quê, afinal? Qual o seu grande objetivo disso?"
     B: — "Bem, isto certamente pós-modernismo não é. Pois do contrário teríamos que chamar muitos escritores de antanho de pós-modernistas. Talvez isso seja uma espécie de doença, e só. Uma chaga do intelecto que pulsilanimiza um pobre qualquer, deixando-o tão tosco e idiota quanto uma criança. O objetivo? Talvez seja o mesmo que o que te faças perseguir tanto o dinheiro."
     A: — "E você está pronto para enfrentar o dessossego que esta vida lhe proporcionará?"
     B: — "Certamente que não. A única coisa importante que eu aprendi com os meus estudos foi não calar a boca de ninguém. Foi ouvir em silêncio todos os pontos de vista das pessoas. Tentá-los fazer sentido a mim. Ainda que me façam pelo mais estúpido e ordinário dos homens, eu ouço e acho belo e incrível, e me satisfaço mesmo de ver um ponto de vista que me vitupera violentamente, cujo raciocínio está tão próprio à engrenagem geral e vindoura das coisas todas. Ao que deu absolutamente certo. Minha cabeça é hoje uma mixórdia versicolor de pontos de vista. Concordo com todos e com nenhum ao mesmo tempo. Sou uma árvore retorcida elevada à nonagésima potência."
     A: — "Estás é louco..."
     B: — "Não sei. Pode ser que eu esteja apenas mais próximo de alguma espécie de verdade a que muitos desconhecem e temem. Pode ser também que eu seja somente um imbecil."
     A: — "Para mim é só uma pura loucura, é uma só grande imbecilidade."
     B: — "Eu sei. Eu concordo, — plenamente... Tu estás de todo correto. Mas, no entanto. Nunca recrimine alguém por dizer simplesmente que o Sol é o astro que circunvaga a Terra. Talvez ele não esteja assim tão errado, de alguma maneira não. Ou, que seja!, lhe recrimine por isso, pois isto não passa de um corrimento natural dos dias, frivolidades corriqueiras e efêmeras, chamas que se acendem e se apagam."
     A: — "Oh!, estas suas conversas me aborrecem, porque não chegamos nunca a lugar nenhum, e você só me bagunça a cabeça gratuitamente. Além de que me falas como se fosses um sábio!"
     B: — "Sim, sim. Às vezes a solução é unicamente o calar a boca das pessoas... Cale-me a boca. É o mais coerente a se fazer... Eu sozinho não tenho forças a me fazer calar em todos os momentos, mas isto faz parte de uma natureza minha menos virtuosa. O único momento no qual quero realmente falar, é o neste mesmo, em cujos segundos estou escrevendo sozinho, mãos no teclado, sons de violino e de piano a encher o escritório. Só quero falar mesmo é enquanto escrevo. De resto, tudo me é inútil. Debates sem fim e permeadouros, oh!, como isso tudo me aborrece! Quero é brincar. Ser criança novamente. Se eu pudesse, escolheria ser um cachorro de estimação..."

sábado, 23 de setembro de 2017

O verbo

     No princípio era o verbo. Depois foram vindo outros. Mais e mais. Verbos vindouros, vindouros verbos. E era verbo aqui, verbo acolá, verbo pra cá, verbo pra lá. Todos em presente contínuo; fluidos, dispersos, desatados em rios e mares, durantes segundos. Espocando igual pipoca no microondas. Eram estouros. Estouros que gritavam e espargiam em brasa. Um fogaréu imenso que principiasse num riscar de fósforos. A cada verbo que se desafogava prenhe, era uma iluminação a mais para os outros. Uma nesga de aurora rangendo os dentes, crispando-se em borbotões de ferro, a desalinho total das excrescências. O verbo projetava o ser humano. Ao menos era assim o que me parecia. Porque sem ele, o verbo, iluminação nenhuma não havia. O mundo sem o verbo seria igual o mundo sem o tempo. A vida se dava era com os verbos. Só com eles, e mais nada. Quais verbos? Eu não sei. Os verbos são tantos, e tão infinitos, e tão infinitamente infinitos, que qualquer necessidade que sobrevier de chofre os podem fazer respirar pela primeiríssima vez. E acabou-se que mais parecia que o princípio era não só o começo, mas também o meio, e também o fim. Pois se no princípio era o verbo, no meio era o verbo, no fim era o verbo. Tudo era o verbo. Que tudo seria explosão impassível de verbos, como se eles imperassem por sobre tudo o mais. Que os seres humanos implorassem, a toda hora, que esses verbos permanecessem intactos, inatos, irredutíveis, indecomponíveis. Uma concha que resguardasse o cerne deles mesmos. Mas que tudo fosse em vão. Que o encastelamento eternôso feito pelos filósofos e pelos poetas fosse apenas a imaginação do encastelamento eternôso. A imagem criada para os outros. E que esta explosão fosse tão eterna quanto efêmera. 
     A eternidade, diz-se, durava segundos. Após os quais vinham mais outros verbos, em cujo meio nenhum era mais importante que o outro. E, ai de mim, como isto irritava os homens profundamente! Eles queriam, de todos os modos, que um verbo fosse maior que o outro. Que um verbo fosse, como diz eles em linguagem difícil, essência, e o resto, aparência. Se irritavam com a maior das brutalidades. Numa verve mais poderosa que a dos artistas. E ao que eu podia perceber, quando uns se apegavam ao demasiado de um verbo, em detrimento de outros verbos, os homens nunca se entendiam, achando que o seu verbo era mais primoroso e mais válido de consideração do que todos os demais. Até mesmo se reuniam em pequenos ou grandes grupos, a vangloriar determinado verbo, maldizendo um verbo contrário. Se sentiam mais poderosos até. Diziam que tinham encostado na essência das coisas, que tinham saído da caverna. E que por isto ninguém precisava mais dos verbos. Mas viessem os verbos porventura a contradizê-los, e eles se irritavam, se enfureciam, se diziam superiores, se pensavam preponderantes a tudo o mais, e viravam as costas. Isto sem falar dos verbos que se prendiam ao indíviduo para todo o sempre. Verbos perigosíssimos, que passavam, aos olhos dos outros, por essências, servindo de desmentir todos os demais que viessem à tona, apodados por aparências. Ou seja, era um verbo que definia o sujeito, ficando ele preso nas peias do mesmo, acorrentado visceralmente de corpo e alma naquilo. Tentasse ele se desfazer, e a realidade embrutecia ainda mais o verbo, tacanhando-lhe em sujeição de escravo.
     Mas, de tudo quanto por hora escrevi, o que mais me levanta os ânimos do intelecto é isto: e se de fato não houver algum algo por detrás destes míseros verbos? Pergunta que não serve para nada, em prático, e que como objeto de zombaria transborda pelos dia-a-dia. Diz-se que isto é inútil. Eu entendo, compreendo as razões, não falo nada. Mas é a pergunta que faz-me levantar todos os dias. É a pergunta única que serviu de alicerce para a vida de muitos senhores e senhoras, habituados estes a uma vida mental desproporcionalmente grandiosa em comparamento com a vida prática e efetiva. É a pergunta que vacila feito vela sozinha por dentre os dedilhados de todos os verbos do passado do presente e do futuro. Que nunca, aliás, terá uma resposta certa...
     Ouço o barulho fino e surdo do laptop se esquentando comigo escrevendo nele. Ouço um som de saxofone lá dentro da noite familiarizando-a com um ar romântico, decerto pares de casais se entreolhando enamorados, risonhos. Ouço os pedestres e os carros contínuos na rua. Uns latidos a mais querendo brincar. Polícia lá no fundo negrumado de sangue e dor. Risadas altas soltas em rodas de conversas entre amigos, momento sem pecado, lírico e singelo. Eu engulo seco um resquício de líquido dentro da minha boca. Os verbos estão em polvorosa ao redor de mim, gritando feito desesperados, iluminando cada pedaço de mundo. A minha cabeça parece querer explodir de tanta potência mental me esgoelando a garganta. Eu suspiro fundo. Mulheres batem à minha porta; eu não abro. Pego um livro, abro, e começo a ler feito um louco... Mas e se nem mesmo os verbos existissem? E se eles forem só mesmo pura imaginação nossa, um tatear às cegas, um delírio tosco da razão? Valeria mais a pena abrir o quê afinal: o livro, ou a porta?... Os verbos me fazem cativo. Eu sempre à busca deles me volto, e são eles que sempre me domam por cima. Uma ironia que me dilacera por dentro dolorosamente.